“Nós” e “Eles”

moisespescadorO Brasil é o único país do mundo onde a população está dividida em duas metades: “nós” e “eles”. O incrível é que se somarmos as duas metades o resultado é o dobro da população!? Os “nós” e os “eles” não se misturam, pois não são farinha do mesmo saco. “Nós” somos legais, hospitaleiros, divertidos, criativos, prontos para ajudar, inteligentes, honestos, trabalhadores, estudiosos, cultos, amigos, colaborativos, leais, respeitadores, enfim, “nós” somos o fino da bossa, como se dizia no tempo do Tom Jobim. Se o Brasil fosse populado apenas pelos “nós” seriamos um país de primeiro mundo, quem sabe líderes globais, à frente de USA e China.

Porém, o que nos atrapalha, o que nos puxa para baixo, para o 3o mundo, é a outra metade da população, a metade composta pelos “eles”. “Eles” são espertinhos, querem levar vantagem em tudo, são ladrões, corruptos, impiedosos, ignorantes, preguiçosos, enroladores, pilantras, injustos, manipuladores, enfim “eles” são “o ó do borogodó”. Pena que não haja cadeia para caber todos “eles”, porque se houvesse o Brasil seria um outro país.

Todavia, o que ninguém se dá contas é que é somente graças a “nós” que “eles” existem. “Eles” são os homens dos grandes pecados, dos pecados mortais. “Eles” desviam dinheiro público de escolas/merenda escolar/ambulâncias para os seus bolsos, sonegam impostos, corrompem, super-faturam, lavam dinheiro sujo em paraísos fiscais, fraudam, são insensíveis à miséria e à desgraça alheia, mentem e enrolam a população dos “nós” o tempo todo. E, se necessário for, são capazes de matar (na verdade mandam um “nós” para fazer isso por “eles”) para preservar seus “direitos” e interesses.

Já “nós” somos homens dos pecadilhos, do pecados veniais, tudo pequeno e perdoável. “Nós” na verdade somos gente muito boa, que para sobreviver nos permitimos pequenos deslizes. Vamos elencar alguns deles, nos quais eu próprio e alguns de vocês já incorremos:

  • No supermercado lotado o marido entra numa fila e a esposa na outra, e um dos dois migra para aquela que andar mais rápido.
  • Naquele labirinto de cordões de isolamento que formam a fila do passaporte “nós” corremos para passar por baixo da corda e chegar na frente de quem resolver fazer todas as voltas do labirinto.
  • “Nós” andamos pelo acostamento das estradas nos “feriadões”.
  • “Nós” damos cinquentinha pro guardinha rodoviário, pra que “ele” nos livre a cara daquela multa por ultrapassagem em faixa contínua. Mas “nossa” consciência está tranquila, pois é muito melhor dar cinquentinha pro guardinha, que ganha mal, do que quinhentinhos pro governo que nos rouba (claro que todos os governos fazem parte da população dos “eles”).
  • “Nós” deixamos o paletó, ou o crachá, na mesa do restaurante a kilo, lotado, enquanto um monte de trouxas (todos são “eles”) circulam com a bandeja na mão.
  • “Nós” compramos aquele recibinho de dentista maneiro, que vai nos permitir pagar menos imposto para “eles”, os ladrões da Receita Federal.
  • “Nós” damos aquela garibadinha no nosso carro bicheira, que fica lindão, antes de passarmos o mico para um amigo do peito (isso se não for pro cunhado, que afinal não é parente). Afinal, amigo ou não, nós vendemos o carro para “ele”.
  • “Nós” damos aquela amassadinha leve no paralama, ou na porta, de um carro vizinho ao nosso naquele estacionamento lotado e aí saimos de fininha. Afinal, “eles” também já fizeram isso com a gente.
  • “Nós” apertamos todas as frutas na gondola do supermercado, deixando aquelas que amassamos para “eles”.
  • No jogo de tênis com nosso brother, “nós” garantimos que a bola do adversário caiu fora da quadra, quando claramente vimos que caiu bem dentro. Afinal, “ele,” o adversário é míope e está longe, do outro lado da quadra.
  • “Nós” não respondemos e-mails, nem ligações, quando sabemos que o que temos a dizer não vai agradar a “eles”.
  • “Nós” mentimos para nossos filhos (mentirinhas), que cedo ou tarde virarão um “deles”.
  • “Nós” também fazemos besteirinhas, tipo comprar “gato Net”; comprar CD’s piratas; puxar um fio elétrico do vizinho; usar o wifi de graça que o apartamento do lado deixou sem senha; quando um casal de “nós” vai a um buffet às vezes só um paga e o outro dá uma beliscada; convidamos os “eles”, que não vemos há muito tempo, pra passar lá em casa, mas não damos nem endereço, nem telefone; etc, etc, etc.

Quer mais, ou tá bom? Eu, obviamente sou um de “nós”. Aliás, um dos pecadilhos que, como alguns de vocês, eu também cometo, é usar minha prerrogativa de idoso na fila do banco para passar na frente daquele gorducho, estourado, manco, hipertenso, suando em bicas, mas que, azar dele, tem menos de quarenta. Mesmo que eu tenha acordado às 5:30 para correr meus 12 km diários e que tenha a pressão cravadinha em 12/7. Afinal, “nós” temos direitos sobre “eles”.

O diabo é que os pecadilhos da população dos “nós” é que chocam os ovos de serpente que irão gerar os “eles”, que no futuro nos destruirão. Como resolver esse dilema centenário de nosso país? Boa pergunta? Não acho que precisamos de mais leis, ou mais cadeias. Precisamos de mais escolas, de professores mais bem remunerados e, principalmente, “nós” precisamos de mais vergonha na cara. Cedo ou tarde, “nós” teremos que nos casar com “eles” e aí, finalmente, o gigante adormecido (quem sabe) vai acordar. O problema é que se forem “eles” que tentarão acordar o gigante, “nós” certamente iremos nos ferrar!

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