O BARQUEIRO

Drift_boat_aka_Mckenzie_River_dory

O rio é muito bonito, mas também perigoso, com muitas pedras e corredeiras. E são muitos, muitos, os barqueiros que diariamente o enfrentam. Todos querem chegar ao final de seu curso, embora nenhum deles saiba onde o rio desagua.

Dentre os barqueiros existem aqueles que se distraem com a linda paisagem de florestas e céu azul, sendo pegos de surpresa pelas pedras, pelas corredeiras e mesmo pelas súbitas tempestades, tão comuns na região do rio.

Outros barqueiros se sentem tão amedrontados com os riscos, que simplesmente não desfrutam da experiência, se mantendo sempre próximos das margens. E existem também aqueles que, mesmo sabendo dos riscos, descem o rio corajosamente, mas desfrutando a paisagem, ao mesmo tempo em que prestam atenção nas pedras. Estes são poucos, muito poucos. E, incluindo estes últimos, cedo ou tarde todos terão que enfrentar os desastres do rio.

Todos os barqueiros têm algo em comum: querem chegar até o oceano, sem nenhum acidente. Até hoje nenhum deles chegou, embora isto seja perfeitamente possível. Até que esse momento chegue, todos nós precisamos descer a correnteza sem mêdo, sem tentar entender porque o rio nos propõe desafios e dissabores diários. O rio é apenas para ser desfrutado. Ele guarda lições preciosas, que todos nós precisamos aprender. E, como não existe nenhum guia de navegação para o rio, a única forma de aprender a desce-lo é praticando. Vamos cometer muitos erros e alguns acertos e é esse tentar sem fim, que, pouco a pouco acenderá, a chama que nos guiará até o oceano.

Assim é o rio da vida. A racionalidade nos é dada apenas para que possamos avaliar o resultado de nossas ações, ponderando sobre o resultado de cada experiência vivida na correnteza do rio. Porém, a vida em sí não é racional e não pode ser desfrutada racionalmente. A tentativa de colocar nosso roteiro de viagem numa caixa nos condenará a limitações que implicam na perda de experiências necessárias ao nosso aprendizado, até mesmo de erros que precisamos cometer para aprender a separar o joio do trigo.

Quando confiamos na corrente da vida e nos deixamos levar, sem vacilos, mas com muita atenção, tudo fica mais fácil. O que nós não devemos, não podemos, é descer o rio da vida com mêdo das pedras. O Senhor do rio nos deu o privilégio da paisagem à nossa volta, que é para ser desfrutada. Mas, o verde das margens e o azul do céu não poderão jamais nos distrair, nem nos desviar da rota. Qualquer que seja o cenário, navegar é preciso.

Além das lições a serem aprendidas, existem também contas antigas a serem pagas e ninguém chega até o oceano enquanto elas não forem totalmente resgatadas. E nesse processo de enfrentamentos e resgates, inevitavelmente outras escolhas erradas serão feitas, o implicará em novas contas a pagar. Mas, o Senhor do rio é justo e quando ajudamos a outros barqueiros em dificuldades ele atenua nossas penas, até mesmo nos desviando de algumas pedras para as quais estavamos nos dirigindo.

Uma coisa importante a ser dita é que o rio da vida não é necessariamente um rio de sofrimentos. A linda paisagem foi lá colocada para nosso desfrute. Mas, quem quiser egoisticamente desfrutar a paisagem só para sí, levará seu barco para as pedras. E no início da descida do rio Deus até nos deu a chave para a segurança: cada um cuidará de si mesmo e dos demais a seu redor. Assim, todos poderão desfrutar da paisagem, certos de que quando algum perigo se aproximar outro barqueiro os ajudará. Infelizmente, ainda não aprendemos a confiar uns nos outros para merecer esse estágio de navegação tranquila.

Por ora, além dos enfrentamentos, também as reflexões são necessárias. Por vezes o barqueiro precisa encostar na margem e avaliar suas experiências de navegação, pensar sobre seus erros e acertos e sobre as reincidências. Estas últimas são as mais perigosas.  Erros reincidentes devem ser compreendidos e evitados a todo custo. Desafios reincidentes também merecem nossa atenção, pois apontam lições importantes e ainda não aprendidas, das quais temos fugido de forma contumaz.

E, refletindo sobre tudo isso, enquanto olha as estrelas, o barqueiro pensa no seu plano de navegação para o dia seguinte.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s