Entre anjos e demônios

Tentando reagir aos ataques do crime organizado, policiais paulistanos têm invadido comunidades, abordando de forma indiscriminada e agressiva seus moradores. No último trimestre, de abril a junho de 2012, ocorreram 100 casos de supostas “resistências seguidas de morte” na Grande São Paulo. O total já corresponde a 19,8% do total de homicídios dolosos do período.

Em junho, mês dos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC), houve 32 resistências seguidas de morte. Um verdadeiro massacre, mesmo que consideremos que em boa parte trata-se de reação da polícia à agressividade dos malfeitores. A frente dessa onda sangrenta está a famosa e tão temida ROTA.

Isso me fez lembrar uma história vivida por mim no início deste ano e que no momento não me interessei em contar. Lá estava eu internado num dos nossos hospitais referência, para uma suposta cirurgia muito simples, do tipo “interna na segunda, com alta na quarta”. Infelizmente, as coisas não ocorreram como esperado e na quarta-feira eu tive que retornar à sala de cirurgia, para uma nova intervenção, pois a primeira fracassara.

Como era de se esperar, voltei para meu quarto cheio de medos e inseguranças. Se a segunda cirurgia não desse certo eu estaria numa situação muito difícil. Na véspera de minha segunda tentativa de alta, 5a feira, eu estava apavorado. Se no dia seguinte, passado o tormento de retirar uma sonda da uretra, pela segunda vez, e se o xixi não saísse, como ocorrera da primeira vez, eu estaria ferrado!

Suando e sem sono, no escurinho do meu quarto, nem notei quando entrou um jovem auxiliar de enfermagem para verificar os vários tubos que injetavam e retiravam líquidos de meu corpo. Tratava-se de um garoto, de menos de 25 anos, rosto imberbe e infantil, com um sorriso colado nos lábios. Rapidinho ele sacou meu desespero e tentou me acalmar. Eu, em total mau humor, fui grosso no início de nosso diálogo:

– Pimenta no rabo dos outros é refresco!

– O Sr. arrisca sua vida umas poucas vezes ao longo da existência, enquanto eu faço isso diariamente.

– Como assim?

– De dia eu sou enfermeiro aqui no hospital e de noite sou soldado da ROTA. Hoje, excepcionalmente, eu estou de folga e aproveito para fazer umas horas extras aqui no hospital.

– Mas, como é que você equilibra esses dois papéis?

– Eu sou casado e tenho uma filhinha. Apenas com o salário da polícia, ou como enfermeiro, não daria para sustentar minha família. Então, eu saio de casa de manhã para o hospital, sempre como se fosse meu último dia. Beijo minha mulher e minha filhinha e encomendo a alma a Deus.

– E você está consciente do risco?

– Claro. Mas, o que fazer? Todos os dias eu já saio da minha patrulha na ROTA vestido de enfermeiro, para não provocar a ira dos bandidos. Ai vou para casa, fico algumas horas com minha filha, descanso um pouco e toco de volta para o hospital.

– Na verdade, minha vida é muito mais perigosa do que o Sr. imagina. Como sou o mais jovem da minha patrulha, o tenente sempre me envia na frente nos casos mais difíceis. Invado covis de bandidos pelo telhado, salto muros com cachorros nos meus calcanhares e enfrento ladrões armados e prontos para atirar, em plena escuridão.

– E você não tem medo?

– Claro que tenho. Por isso, antes de saltar um muro atrás de um ladrão eu me abaixo e recito o Salmo 23, um dos textos mais lindos e reconfortantes da Bíblia.

E, sem me pedir licença, o garoto começou rezar por mim, desfiando o lindo Salmo 23 (“O Senhor é o meu pastor e nada me faltará. Me faz repousar em pastagens verdes e me conduz por águas tranquilas, restaurando-me o vigor. ..“). Como que num passe de mágica, eu me acalmei e em seguida caí no sono.

No dia seguinte tive alta, tudo deu certinho, e até hoje não sei o nome daquele soldado, vestido de enfermeiro, que foi meu anjo da guarda num momento de desespero. Voltando para casa, dei um Google em Salmos, que até então para mim era apenas “um CD do Cid Moreira”, e descobri vários outros textos lindos e confortadores, que espero um dia poder recitar na cabeceira de alguém que esteja precisando. A imagem do menino que vivia (e deve viver ainda) entre anjos e demônios jamais sairá de minha mente e me inspirará pelo resto de meus dias.

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