Entre na próxima saída

Minha cabeça é um turbilhão, sempre foi. Meu pai me chamava de “cabeça de pudim”. Um amigo mais irreverente preferia comparar meu turbilhão mental com aquele que se forma quando apertamos a descarga do vaso sanitário. Seja lá como for, quando minha cabeça comeca a borbulhar, as bolhinhas têm que escapar, senão a cuca funde.

Eu uso três truques pra me livrar do turbilhão mental: saio pra dar uma corridinha, sento em algum julgar tranquilo e medito a respeito, ou escrevo, via de regra a ultima opção como consequência das duas primeiras.

Hoje acordei cedo, modo de falar, com turbilhão mental. Optei pela atitude contemplativa, já que estou na praia. O dia estava lindo, “de uma claridade tão insistente, que se torna audível, sob um céu de um azul tão intenso que parece inventado”. Essa frase não é minha, é da Clarice Lispector, que foi quem começou meu turbilhão mental.

Mas, voltando à praia, sentei-me sob o guarda-sol observando os frequentadores, da forma como as crianças observam os bichos no zoológico, com curiosidade, diferentemente da atitude de contemplação bovina com que observamos as paisagens. Estava difícil assumir uma atitude profissionalmente curiosa para observar as incríveis panças de chope, os biquínis sem noção das matronas, ou até mesmo as gostosonas correndo na areia. As bolhinhas se negavam a sair pelo método contemplativo, só me restando apelar para uma corridinha.

Ao dar os primeiros passos retornei à origem de minha inquietacao: um trecho do livro da Clarice Lispector (A Maçã no Escuro), que recém iniciei a leitura. Eu nunca consegui ler Clarice na juventude, a despeito do muito esforço que tenha feito. Sempre começava muito animado, para desistir logo adiante, impaciente com as belíssimas construções mentais da autora. Clarice é uma viagem e os jovens viajam pensando no destino, alheios à paisagem. Descobri a Clarice já velho. É preciso lê-lá como um evangélico lê a bíblia: degustando, palavra a palavra, frase a frase, parando para pensar e apreciar as filigranas mentais que ela constrói em cada linha de seu texto.

Enrolations a parte, o trecho do livro da Clarice que me deu no na cuca é o seguinte: “O bom de um ato é que nos ultrapassa. Com o acúmulo de pensamentos de bondade sem a ação da bondade, com o pensamento de amor sem o ato de amor, com o heroísmo sem heroísmo, sem falar de certa crescente imprecisão de existir que terminara se tornando o impossível o sonho de existir – aparentemente aquele homem terminara por esquecer que uma pessoa pode agir. E ter descoberto que na verdade já tinha involuntariamente agido, dera-lhe de repente um mundo tão livre que ele se estonteara na vitória.”

A força desse texto me atingiu como um soco no estômago, tirando-me momentaneamente o fôlego, já curto pelo esforço da corridinha. Passamos a vida toda como passageiros, quando todo o tempo nos é oferecido o lugar do motorista. Mêdo da vida nos impede de viver, nos limitando a seguir scripts prontos, descendo a corrente sem coragem para nadar em qualquer direção.

Quantas vezes vocês se deixaram levar pelo impulso e tomaram o lugar do motorista? No meu caso conto nos dedos das mãos. Mas, é graças a esses poucos atos impulsivos que a gente escolhe a profissão, conquista a mulher amada, faz a viagem dos sonhos, constrói  uma casinha na praia, escapa da morte certa, atinge cumes aparentemente inalcançáveis. E por que, sabendo que só o impulso nos leva à realização dos atos ousados que fazem nossas vidas fazer sentido, somos tão comedidos para comete-los? Cagaço puro!

A corridinha terminou, botei todas as bolhinhas do turbilhão pra fora e agora estou relaxado. Relaxado, mas absolutamente preparado para meu próximo ato impulsivo, que já fermenta na minha cabeça. Qual é esse ato impulsivo?  Sorry folks, isso é pessoal. Se der certo eu ficarei muito feliz, mas não poderei contar a ninguém, já que os atos impulsivos são segredos da alma. Mas, se der merda todos saberão…

 

Anúncios

Uma consideração sobre “Entre na próxima saída”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s