Brasil X Barça

Quem gosta de futebol, como eu, acordou cedo ontem (18/12/11, um dia histórico) para assistir Barça X Santos. Para nossa frustração não houve Santos, apenas Barça. O Muricy Ramalho resolveu não agredir o Barça (covardemente na minha opinião) e espera-lo na defesa. O resultado foi um aula de futebol, com 72% de posse de bola para os catalães, conforme já apontaram todos os comentaristas de futebol. Segundo o santista Milton Neves, “o Santos virou motivo e piada”!

Mas, apesar do espetáculo de um time só, quem gosta de esporte se deliciou, não apenas pelo show, mas pela possibilidade de reflexão acerca do futuro (?) do futebol brasileiro. Eu li tudo que saiu na mídia a respeito. De todas, a melhor das análises foi feita por um amador, o Eduardo Rocha, em seu blog “Nó Táctico”.

Repito abaixo um trechinho do post do Eduardo, para aqueles que tiverem preguiça de ler o texto completo, o qual eu recomendo muito:

Mais importante que a descrição tática, entretanto, é a identificação da estratégia usual do Barça – aquilo que podemos chamar de conceito – ou cultura – do clube catalão, transmitido a todas as gerações de jogadores desde a revolução deflagrada por Cruyff. Formam-se no campo aquelas ‘pequenas sociedades’, grupos de três jogadores próximos.

É desta forma que o Barcelona mantém seu alto índice de posse de bola. Não há inversões longas, ligações diretas, decisões apressadas. O controle do jogo se dá com passes curtos dentro de cada pequena sociedade. Se não foi possível progredir com o triângulo formado por Xavi, Dani Alves e Messi – por exemplo, a bola é levada ao triângulo mais próximo, com Iniesta, Thiago Alcântara e Fabregas, e dali pode ir para o centro à frente, recuar, para a esquerda à frente, para a esquerda atrás, voltar à direita…sem pressa.

Lembram contra o Real Madrid? Messi marcou tanto que foi o principal roubador de bolas por parte do Barcelona. A recuperação da bola passa pelo ataque, todos homens cercam, roubam, fazem faltas. Este é o futebol total, o bom futebol da Holanda de 74 passou para um clube.”

O Eduardo foi simplesmente brilhante em sua análise, o que me remeteu ao Brasil. Não à seleção brasileira de futebol, mas à nação brasileira. O esquema tático do Barça tem seu lado social a ser admirado. As “pequenas sociedades” do Barça são absolutamente solidárias. Ninguém fica prejudicado por não ter um companheiro para quem passar a bola; tem sempre alguém se deslocando sem bola para se aproximar de quem a domina, muitas vezes sob pressão. E é por isso que o Barça não rifa a bola, ela é passada de pé em pé nas “pequenas sociedades”.

O Brasil nação poderia imitar o time catalão e começar a se repensar como um agrupamento de pequenas sociedades, que colaborem entre si. Na verdade, os países mais adiantados do mundo já o fazem. Os Estados Unidos da América são um conglomerado de pequenas sociedades que assumem as responsabilidades, em âmbito pequeno, por executar as macro políticas propostas no nível federal.

As pequenas sociedades são a base de uma sociedade civil organizada e representativa. Hillary Clinton se expressa a respeito na página oficial da Secretaria de Estado: “Uma nação livre tem três elementos, que atuam como um tripé de sustentação: um governo representativo, um mercado funcionando livremente e uma sociedade civil organizada. Esses três elementos erguem e sustentam nações, na medida em que proporcionam o surgimento de padrões mais elevados de progresso e prosperidade.  A sociedade civil organizada fomenta a governança democrática e uma base ampla para o crescimento.”

As grandes nações aplicam essa visão brilhante, mesmo que com alguns furos na execução. Os USA, por exemplo, têm uma sociedade civil forte, um governo representativo, mas seu mercado, embora livre, tem se mostrado predatório, como bem o demonstra a crise dos bancos em 2008. A Comunidade Europeia também tem sociedade civil bem organizada, mercados livres, mas seus governos, embora representativos, são obesos e falidos, com bancos centrais em guerra com os governos executivos.

O Brasil, por sua vez, não tem nada nem de longe parecido com uma sociedade civil organizada (dos 3, o pilar mais importante), seu governo não é representativo em função da lei eleitoral propícia à manipulação dos eleitores e os mercados são manietados, regulados por um governo protecionista e antiquado, interventor e ganancioso, que toma 38% do PIB em impostos. Ou seja, quando nos comparamos com USA e Europa a distância é imensa. O primeiro precisa controlar melhor seus mercados (o que já está começando a praticar) e a segunda precisa enxugar seus estados (o que também já vem acontecendo, até meio na marra, em função da dor de barriga econômica do MCE).

Ou seja, se Europa e USA podem consumir uma década para sanar as mazelas de um bom modelo já em funcionamento, talvez o Brasil precise de um século para implementar o tripé, por aqui ainda inexistente. Os gringos até se iludem, achando que nosso “banquinho tem as 3 pernas” (governo representativo, mercado livre e sociedade civil organizada). Nós que aqui vivemos, sabemos que esse “banquinho é virtual”. Na verdade, as 3 entidades por aqui se fundem numa só: um hipopótamo voraz e dominador chamado Estado Brasileiro.

É mais ou menos a mesma coisa quando comparamos o Barça com o futebol brasileiro. É fácil teorizar e dizer que as seleções brasileiras de 70 e 82 jogavam como o Barça. Só que nessa época o Barça não existia para compararmos. Existe uma grande diferença: o Barça marca solidariamente e busca todo o tempo a posse de bola, o que é mais do que simplesmente ter um toque primoroso. Isso nunca existiu no futebol brasileiro, que sempre se limitou a tocar bem a bola, odiando ter que combater para obter sua posse. Da mesma forma que não existe por aqui uma sociedade civil que se organize para defender o bem comum. Nossas “pequenas sociedades” são giram em torno dos interesses particulares de partidos e empresas, que traficam influência na busca dos ganhos fáceis e do poder para sua perpetuação. Ou seja, o Brasil ainda está longe do Barça, seja na bola, seja em sua estropiada sociedade civil.

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