Back to basics

Eu tenho poucos vícios, que a esta altura da vida se reduzem ainda mais. Um deles é a corrida de rua, o outro é o vinho. Posso dizer que corro para poder tomar mais vinho e tomo mais vinho porque me motiva a correr (pra queimar). Tanto faz, porque minha mulher implica com meus dois vícios…

Eu comecei a correr no Ibirapuera numa época (não me perguntem o ano) em que, quando eu passava, as pessoas olhavam para ver se a polícia vinha atrás. Eu demarquei um dos primeiros circuitos do Ibirapuera, usando o odômetro da bicicleta e uma lata de tinta amarela. Comecei correndo 2 ks, até chegar aos 42 km da maratona, da qual hoje quero distância (vou bem até os 21 km, depois prefiro o vinho).

Naqueles velhos tempos do faroeste das corridas, o tênis era um Quichute da vida, isso quando não era um Conga. Os mais abastados usavam o mesmo sapato do tênis nas corridas, nada a ver, acho que daí o termo inadequado (tênis de corrida). Os sapatos de corrida têm uma história, interessante para quem é esportista, que vale a pena conhecer.

Em 1962, a New Balance lançou o primeiro sapato de corrida, “cientificamente testado”, seja lá o que isso signifique. Mais ou menos na mesma época, Bill Bowerman, técnico de corrida da universidade do Oregon, insatisfeito com a sequência de contusões que os sapatos de corrida inadequados causavam em seus atletas, desenhou seu próprio modelo. Junto com Paul Knight, Bill montou sua empresa  e saiu marqueteando o produto pelos Estados Unidos afora. Ele frequentava as competições mais importantes, vendendo seus sapatos de corrida.

Os sapatos de corrida do Bill tinham o calcanhar acolchoado e também eram leves, dando uma sensação de conforto e segurança aos atletas. Na onda do sucesso da inovação, a empresa, inicialmente batizada de Blue Ribbon Sports, logo se tornou conhecida como Nike, hoje uma das maiores e mais conhecidas no ramo de produtos esportivos, não necessariamente de sapatos de corrida (na minha opinião).

A grande inovação oferecida pela Nike nasceu na cozinha de Bowerman em 1972, quando ele encheu sua máquina de fazer waffles com borracha sintética. Nasciam ali os solados tipo waffle, que fazem sucesso até hoje nos sapatos de corridas.

Naquele mesmo ano, Bowerman pagou USD 35 a um estudante para desenhar o logo da Nike. Ele não gostou do que viu, mas por falta de opções aceitou aquilo que, décadas depois, se tornaria o ícone e símbolo de status no mundo esportivo. Rapidamente, a Nike se tornou líder em design e vendas de equipamentos esportivos.

Nessa época, eu também descobri os primeiros sapatos de corrida, viajando aos USA pela empresa em que trabalhava. Experimentei o Nike e achei meio duro, depois testei o New Balance, que achei macio demais (tipo correr com o pé numa manteigueira).  Depois encontrei o Brooks, que me equipou até falir alguns anos depois (o Brooks voltou ao mercado e hoje vende bem). Também testei Saucony, que achei mais ou menos. Um belo dia, calcei um par do japonês Onitsuka Tiger, ou simplesmente Tiger, que mais tarde virariam ASICS. A marca Tiger ainda é vendida pela ASICS, apenas para sapatos informais, para uso não esportivo.

Os ASICS se tornaram meu sapato padrão para correr. Nos últimos 5 anos, adotei o ASICS Gel Kayano como o meu preferido, chegando a ter quatro pares iguais. Para quem não sabe, os sapatos de corrida duram uns 500 a 800 kms, mas se você revezar duram muito mais.

Em 2011 descobri que eu nada sabia de sapatos de corrida. Ao longo dos meus trinta e muitos anos de corrida me machuquei frequentemente. O de sempre, pra quem corre: joelhos, panturrilha, arcos dos pés e calcanhar. Por mais acolchoados e macios que fossem os sapatos, mesmo assim a rotina de contusões continuava. Graças à rotina da academia e dos exercícios com pesos a coisa melhorou um pouco, mas nunca zerou.

Há cerca de 10 anos eu comprei um apartamento na praia e desenvolvi o péssimo hábito (opinião da minha mulher) de correr descalço. Depois de um ano de bolhas nas solas dos pés, acabei desenvolvendo “patas”, que hoje me permitem cruzar as ruas de pedriscos da vila de São Lourenço, ao meio dia, sem sentir nada. E aí, surpresas das surpresas, a frequência de contusões das corridas diminuiu muito, sem que eu correlacionasse a praia com a redução de meus problemas.

Muito recentemente, um amigo me deu a dica de um livro, que esclareceu tudo e me abriu as portas para um novo mundo. O nome do livro é “Nascidos para Correr” do autor Christopher McDougall. Fazendo uma longa história curta (leia o livro, é imperdível), o autor descobriu uma tribo de índios mexicanos, os Tarahumaras, perdida em rincões inacessíveis da Sierra Madre, que passam suas vidas correndo descalços, ou usando sandálias de pneus, sem nunca se machucar. Esses índios foram trazidos por Christopher para competir em ultramaratonas (+200k) nos Estados Unidos, dando um pau humilhante nos super campeões americanos. Tem um trecho hilário do livro, quando ele descreve os Tarahumaras sentados no meio fio, fumando e rindo, enquanto os super atletas se aquecem, para no final botar horas de vantagem em relação ao americano mais bem classificado!?

O livro de McDougall de certa forma criou uma nova febre no mercado de corridas de rua, conhecida por barefoot running. Os adeptos do barefoot running sugerem que a corrida sem nenhum calçado, com com pouquíssima sola, desenvolve a musculatura dos pés, o que se reflete em maior equilíbrio de todo o corpo durante a corrida, resultando em menos contusões.

Daí para a indústria dos sapatos de corridas começar a lançar suas inovações em barefoot running foi “dois palitos”. A primeiros empresa a acreditar em barefoot running, “desde pequenininha”, foi a Nike com seu modelo Nike Free, introduzido em 2004. Os cortes transversais do solado do Nike Free obrigam os pés a se curvarem durante a corrida, simulando o movimento natural. Eu testei esse modelo há cerca de três, quando ainda nem desconfiava dos conceitos do barefoot running. Achei uma droga, pois a estrutura do calçado em sí é muito frágil, fazendo sua utilização nas calçadas de São Paulo um verdadeiro suicídio (torci os pés muitas vezes com o Nike Free).

Depois que eu descobri o barefoot running fui pesquisar na web e descobri vários modelos alternativos. Existe até um ranking dos barefoot running shoes. Os calçados chamados de minimalistas mais conceituados são: Nike Free, Vibram Five Fingers (Tarahumara mesmo, só um soladinho e com espaço pra encaixar os dedos individualmente), o ASICS Gel Blur 33, o Newton (o modelo Trainer, que dá pra usar todos os dias), o New Balance MR800 e o Saucony Kinvara. No Brasil eu encontrei o Newton (só na Track & Field), o ASICS Gel Blur 33 e o Nike Free.

Hoje eu tenho dois pares de ASICS Gel Blur 33 e um par de Newton. O ASICS usa o mesmo conceito de solado do Nike (com cortes transversais), mas tem uma estrutura muito mais sólida e é muito confortável. O Newton é uma inovação radical. Ele não tem cortes no solado, mas um “calombo” no meio do pé que te obriga a aterrissar diferente e depois rolar, simulando o movimento natural dos pés descalços. Você estranha um pouco de início, mas depois se acostuma e acha uma delícia.

Eu venho correndo regularmente e alternativamente com o Newton e com o ASICS. Ainda não decidi qual é o melhor, os dois são bons, cada um à sua maneira. O fato é que desde então minhas contusões tenderam a zero, a corrida é mais curtida com os sapatos leves e meu sonho passou a ser uma viagem à Sierra Maestra para conhecer, e quem sabe correr, com os meus ídolos, os Tarahumaras (que a minha mulher não saiba disso). Os Tarahumaras, além de corredores fanáticos são chegadinhos numa tequila, o que de certa forma nos torna brothers…

Se você, amigo corredor, ficar tentado a testar o estilo minimalista de calçados de corrida, meu conselho é: vá devagar e instrua-se antes para não se machucar. O site Zen Habits Breathe traz um guia completo de barefoot running para quem está iniciando. Vale a pena ler seu conteúdo, que é muito bom.

 

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8 comentários em “Back to basics”

  1. Augusto Pinto, sensacional artigo. Eu tambem, metido a Forrest Gump, ja me contundi varias vezes e ja fraturei a tibia por stress e, com certeza, por correr com os sapatos errados. Vour ler o recomendado. Enquanto isto, tambem fico no vinho. Abracos e obrigado pelaa dicas.,

  2. Augusto, você é uma inspiração para quem parou de correr e ficou só no vinho… me animou a voltar à ativa… antes do ano novo. Abraços e obrigado.

  3. Oi Augusto cheguei por acaso no teu Blog, adorei este post, também me declaro viciada na corrida e no vinho!!! Eu gosto bastante do modelo 662 de New Balance e na verdade não sabia nada sobre barefoot, legal a informação e a dica do livro. Já leste “Do que falo quando eu falo de corrida” de Murakami?, lendo um pouco teu post lembrei dele.
    Abraço, LAURA

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