Pensar cansa

Eu sou sócio de uma empresa onde a maioria dos colaboradores são muito jovens. Eu noto que sempre que um problema é intrincado, sem pontas visíveis para começar a ser destrinchado, há uma certa “preguiça mental” na hora da busca pela melhor solução. Nesse momento os jovens tendem a optar por soluções óbvias, copy and paste de algo que já fizeram anteriormente, ao invés de dar tratos à bola para buscar algo novo e mais criativo. Por quê a geração Y, plugada na Internet e antenada em todas as novas hypes tem essa atitude tão comodista e, porque não dizer, escapista? Para tentar entender é preciso dar uma espiada nas teorias sobre as modalidades do pensamento estruturado.

Quando buscamos as soluções possíveis para um problema, ou desafio intelectual complexo, existem sempre dois caminhos: podemos utilizar o método do pensamento top down, ou do bottom up. O pensamento top down é considerado adequado para a busca das soluções estratégicas e o bottom up melhor para as táticas. Pensando de cima para baixo somos dedutivos, e no caminho inverso indutivos.  Vale a pena ler o artigo “Bottom up vs top down thinking in the Digital Age, publicado no blog Artificial Simplicity.

Sendo simplistas, poderíamos dizer que gerentes e executivos deveriam pensar top down e os não gerentes (profissionais técnicos) deveriam optar pelo método bottom up. Como sempre, as simplificações são perigosas. Se o time gerencial decide sempre pelo processo top down, sem gastar algum tempo analisando os detalhes (pelo menos os mais relevantes), poderão escolher holisticamente, desconsiderando os riscos e obstáculos (escondidos nos detalhes).

Inversamente, quando o staff, habituado a lidar com detalhes no processo bottom up,, não considera as implicações gerais daquilo que estão induzindo, podem criar imensos problemas para o negócio.  Ou seja, o recomendado é que geralistas gastem um tempinho analisando detalhes antes de decidir, e detalhistas considerem as implicações macro, no caminho oposto. Parece óbvio, né, mas a preguiça mental dificulta ambas as categorias a sair de suas zonas de conforto (visão macro, ou micro).

Uma leitura torta é que equipes táticas leais (devotas à empresa) devem mergulhar nos detalhes de um processo, e na sua subsequente execução, sem questionar os resultados macro. Isso, além de preconceituoso, inibirá o surgimento de ideias inovadoras, que via de regra vêm de baixo e não da cúpula. Esse conceito de lealdade, exigida nas forças armadas (cumpra suas ordens sem questionar, ou mesmo sem entender porque), definitivamente não funciona no mundo corporativo, particularmente numa fase de grandes mudanças globais, instabilidade econômica, concorrência predatória, tudo isso induzindo à baixa lealdade sem o necessário envolvimento e conquista das mentes.

Toda essa teoria para chegar a uma proposição: os jovens do século XXI demandam o envolvimento em troca da lealdade, querem entender o impacto global das tarefas que lhes são delegadas, mas têm grande dificuldade em pensar holisticamente. E aí parece que têm preguiça de pensar… Quando solicitados a trabalhar com grandes massas de dados, elaborar planilhas complexas, escrever um componente complexo de um programa de computador, a desenhar um item de um mecanismo, etc, os jovens atuais costumam se sair muito bem. Porém, se, inversamente, lançarmos um desafio complexo, para que eles pensem nas macro-implicações e visualizem possíveis macro-soluções, SEM DISPOREM DE DETALHES SUFICIENTES PARA ANALISAR, nesse caso os jovens tendem a travar. Isso salvo raras exceções, inclusive de alguns setores que, por definição, pensam holisticamente (por exemplo quem trabalha na área de criação de grandes agências de publicidade).

E por quê isso acontece? As gerações X e os baby boomers se acostumaram a pensar top down, sem muitos detalhes, pois esse era o mundo da época. Considere dois pilotos diante do desafio de escolher um dentre dois alvos. Um piloto combatia na 2a Grande Guerra Mundial e o outro na recente guerra do Iraque . O pobre do inglês, pilotando um Spifire sobre Berlim, quando muito podia contar com o que seus olhos viam. É lógico, que esse piloto tinha então que pensar macro e tomar sua decisão, sem o apoio indutivo dos detalhes (que ele não tinha).  Já o piloto americano de um moderníssimo helicóptero Apache, reputaria como idiotice contestar, ou mesmo tentar entender, as recomendações propostas pelos sistemas de bordo. Esse tipo de paradigma derrubou o avião da Air France no vôo 447. Dificilmente, um piloto de 707 dos anos 60 teria sido induzido ao erro pelas leituras defeituosas da sonda pitot…

Minha sugestão. Se você trabalha com jovens e tem a responsabilidade de ajuda-los a crescer profissionalmente, ensine-os a pensar top down. Mostre-lhes o quanto é perigoso permitir que computadores, internet, redes sociais, ou sistemas eletrônicos, direcionem escolhas, alijando o ser humano do processo decisório. Pelo contrário, pensar holisticamente nos dias de hoje, com a quantidade de detalhes à nossa disposição, é não apenas mais eficaz, como imensamente prazeroso.

Ensine os mais jovens que, antes de pensar na grande sacada, é sempre bom dar uma espiada (e entender) o oceano de informações  SEMPRE à nossa disposição. Num mundo complexo, a contextualização é a chave do sucesso.

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2 opiniões sobre “Pensar cansa”

  1. Augusto,
    Excelente sua publicação. Recentemente em uma entrevista para a BandTec disse que os estudantes precisam, antes de mais nada, aprender a estudar, saber diferenciar leitura de entendimento e principalmente desenvolver o senso crítico. Não confundir reclamações com senso crítico. A reclamação é algo estéril sem as alternativas de solução.
    As instituições de ensino possuem um papel fundamental nesse processo, o que efetivamente “gerar conhecimento” e afastar do status quo que a grande maioria encontra-se atualmente que é apenas de disseminar informação.
    Silvia

  2. Na mosca, Augusto. Irrepreensível. Existem os que acham que não sabem, mas sabem. Mentoring. E também os que acham que não sabem e não sabem mesmo. Se quiserem aprender, ótimo. Mas o caso mais comum, e o mais complicado, são aqueles que acham que sabem, mas não sabem. Como tantos “executivos” (hoje todo mundo é, acabaram-se os vendedores, os gerentes), fora o exemplo de Luiz Inácio Apedeuta. Aí, …

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