A Itamar de saias

Quando o Lula se elegeu pela primeira vez eu confesso que me deu um friozinho na barriga. Aquela história de sindicalista, sem estudo e que de repente vira um presidente bem sucedido não tinha dado certo nem na Polônia do Lech Walesa. A trajetória do polonês se parece um pouco com a do Lula. Nascido em 29 de setembro de 1943 (Lula nasceu em 1945), em Popowo, ele também parou cedo de estudar e ganhou projeção com movimentos grevistas, igualzinho a seu homônimo de São Bernardo do Campo. Como Lula, a popularidade transformou Lech Walesa em presidente da Polônia em 1990, ano em que Lula teria sido empossado, caso tivesse vencido o Fernando Collor em 1989. Tudo muito parecido. Mas, Lech não foi um bom presidente, sendo derrotado em sua tentativa de se reeleger em 1995.

Feita essa análise, em 2002 eu salvei uma graninha e me preparei para o baque do primeiro governo Lula. Para surpresa geral, o Lula se saiu muito mais heterodoxo em matéria de economia do que o FHC e o resultados todos vocês conhecem. Um governo oco, corrupto, zero de realizações, saúde e educação despencando, infra-estrutura aos cacos, corrupção endêmica e 85% de aprovação, graças a seus (bons) programas de inclusão social e sua persistência no conservadorismo econômico, mantendo sempre a inflação baixa. Dados os descontos e tirados os noves fora, o Lula surpreendeu positivamente. Eu esperava que fosse muito pior.

Daí a achar que tudo isso o credenciava a inventar seu sucessor do nada, parecia brincadeira. A Dilma Rousseff é o anti-climax, como candidata a presidente: apolítica, zero de carisma, marrentinha, nenhuma experiência em gestão (please, não venham com essa história de mãe do PAC e de secretarias nos governos do Olívio Dutra no RS), dificilmente uma mente brilhante, pelo menos se tomarmos por base seus raciocínios confusos durante os debates da campanha presidencial.

Novamente, eu botei as barbas do molho. Me preparei para um governo “a la Cristina Kirschner”,  com a Dilma fazendo o papel de boneco de ventríloquo para esquentar a cadeira para o Lula em 2014. Minha esposa, que tem uma intuição dos diabos, cantou a bola: a criatura, até por ser mulher, vai ser independente do criador. E, passados quase três meses desde a posse, tudo indica que a Lygia esteja certa de novo.

Não sei se a Dilma vai uma grande presidente (não dá pra engulir essa história de presidenta), nenhuma JK de saias, mas ela pode muito bem ser a nossa Itamar Franco, versão feminina. Vocês acham a comparação esdrúxula? Vejamos: ambos são marrentinhos, nenhum deles é popular, ambos são mineiros, os dois tem pouca experiência administrativa (o Itamar foi apenas prefeito de Juiz de Fora, antes de se tornar senador e vice-presidente do Collor), embora ao Itamar sobre a mineirice política que falta para a Dilma. Mas, exatamente na mineirice política que falta à Dilma é que ela me surpreendeu positivamente. Apesar de não ter a matreirice de um Benedito Valadares, de um Itamar Franco, ou da versão moderna do Aécio Neves, a Dilma tem sido muito sagaz em suas decisões.

Vou elencar 10 razões pelas quais a Dilma me surpreendeu positivamente, até agora:

  1. Ela trouxe de volta o Antonio Palocci, a melhor cabeça do governo Lula (o pecadilho do Francelino é nada comparado ao mensalão). Teve o bom senso de lhe dar um cargo de “Rasputin” para não expor o telhado de vidro do homem.
  2. No Itamaraty, desmoralizado pela fanfarronadas do governo Lula, trocou o porco espinho anti-americano do Celso Amorim pelo Antonio Patriota. Anteriormente, na embaixada de Washington, posto que ocupava antes de ser nomeado secretário-geral do Itamaraty, Patriota participou ativamente dos esforços para aproximar os governos Lula e George Bush. Suas relações em Washington o credenciam para melhorar as relações bilaterais entre os dois países.
  3. Escolheu Curt Trennepohl para chefiar o Ibama. O nome de Trennepohl foi uma decisão pessoal da Dilma e nem estava no banco de apostas de quem deveria assumir o mais alto posto do órgão responsável pelo licenciamento de grandes obras e fiscalização do desmatamento. Trennepohl foi escolhido para colocar em prática um processo de modernização do Ibama. Craque em direito ambiental, segundo funcionários do próprio órgão, o novo presidente assume o cargo com o desafio de acelerar a concessão de licenças ambientais para grandes obras, sem cometer pecados mortais contra a natureza.
  4. Chamou o Alexandre Tombini, um profissional de carreira dentro do BACEN, para suceder ao Henrique Meirelles, que se excedeu ao peitar a presidente. Para os analistas, Tombini sinaliza a continuidade da política monetária desenvolvida por seu antecessor, ao mesmo tempo em que é visto como menos severo quando o assunto é o juro básico e, portanto, mais alinhado ao pensamento do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Podemos chamar isso de sabedoria.
  5. Mas, não jogou o talento de Meirelles no lixo, utilizando-o numa outra função, quase tão espinhosa quanto o BACEN. Nomeou-o como Autoridade Pública Olímpica (APO), o órgão responsável por coordenar as ações governamentais para os Jogos Olímpicos de 2016. Em sua nova função, Meirelles está criando um regime especial de licitação para as obras dos Jogos Olímpicos de 2016. Trata-se de um regime de licitação específico, destinado a acelerar as obras necessárias à realização das Olimpíadas de 2016 e da Copa de 2014.
  6. Continuou próxima do Lula, tomando sua benção quinzenalmente, mas fazendo as coisas com sua própria cabeça.
  7. Restaurou a liturgia do cargo que ocupa, eliminando as improvisações, as piadinhas sem graça, as ironias e as fanfarronices. Tem sido discreta e equilibrada. Na recepção ao Obama deu um show de elegância ao receber os ex-presidentes brasileiros e prestigiá-los como o Lula nunca teve a dignidade de fazer.
  8. Teve a coragem, ainda que teórica por enquanto, de mexer no custeio da máquina federal, propondo um corte de R$ 50 bilhões em 2011, o que alivia a barra do Tombini para aumentar os juros mais levemente. Isso junto à medidas prudenciais anunciadas pelo presidente do BACEN, mostram um arsenal de armas contra a inflação mais multifacetado do que a estratégia monotemática dos juros altos do Meirelles.
  9. Botou em prática de imediato seu discurso de campanha de respeito à liberdade de imprensa e aos direitos humanos.
  10. Tem respeitado a oposição, entendendo sua importância para a consolidação da democracia brasileira.

Parece pouco? Talvez seja, mas faz tempo que não víamos decisões equilibradas e racionais saindo do Palácio do Planalto. Ainda não é um furacão, mas já é um ventinho de novas esperanças de um Brasil mais moderno e integrado ao resto mundo.

 

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