Hype

Muito já se falou sobre o futuro da mídia, mas na minha modesta opinião ainda não se falou tudo. Dois palpites são unanimidade:

  1. A mídia impressa vai sucumbir à onda da convergencia, com tablets, smartphones, notebooks e TV’s interativas substituindo o papel. Esse palpite me parece uma barbada.
  2. Os jornalistas serão substituidos pelo público, que será, ao mesmo tempo, leitor e gerador de conteúdo. É o fenômeno da mídia social. Esta me parece uma meia verdade. Eu acho que o papel dos jornalistas vai mudar e estes serão compelidos a interagir e colaborar com o público. Mas, de forma alguma os jornalistas profissionais desaparecerão.

E por que os jornalistas terão que “engolir o sapo” dos leitores-repórteres? Por uma razão muito simples: a unipresença do público. Não há Rupert Murdoch, com toda sua grana, que consiga competir com bilhões de “repórteres” munidos com um celular 3G com camera. No surgimento de um novo fato haverá uma testemunha ocular que, em questão de minutos, postará um video no YouTube, tuitando sua existência para o mundo.

Isso acabou de acontecer no tsunami do Japão. A BBC produziu os videos mais impressionantes em tomadas aéreas, mas os primeiros videos amadores já estavam no YouTube muito antes que a BBC soubesse do tsunami. Aliás, de todos os videos que eu vi a respeito, o de maior impacto, pela autenticidade, foi produzido por um amador. Confira.

Porém, nenhum dos palpites nos explica como será essa nova mídia, que renascerá das cinzas da midia mainstream. Para quem não está habituado ao termo, a mídia mainstream é produzida pelos grandes grupos jornalisticos, que empurram informação “goela abaixo” do público, com o apoio corporativo das grandes empresas, que os sustentam. Por mais que se afirme que a grande imprensa é livre, não se pode negar a forte influência do mundo corporativo sobre os editores.

Eu acho que a nova mídia surgirá de uma parceria entre os grupos jornalisticos, o público e o mundo corporativo. Na verdade, isso já está acontecendo, bem embaixo de nossos narizes. Eu escolhi três exemplos da nova mídia para ilustrar essa tendência: The Daily (o jornal eletrônico para iPad lançado por Rupert Murdoch), The Huffington Post (o portal de notícias e agregador de blogs Americano, criado por Arianna Huffington e Kenneth Lerer, recentemente vendido para a AOL) e o www.good.is (o site que, em colaboração entre indivíduos, empresas e entidades sem fins lucrativos, oferece textos, vídeos, fotos, infográficos, etc, um autêntico magazine eletrônico pós mainstream).

Iniciando nossa avaliação com o The Daily, podemos dizer que é uma baita sacada do Murdoch. Assista uma pequena demo sobre o uso do The Daily:

Mas, a despeito da ótima qualidade editorial, de seus videos em alta definição e de seus gráficos muito bem feitos, quando muito podemos considerar o The Daily como uma evolução técnica da mídia mainstream em direção à onda dos tablets, ou você acha que algo vindo do mega grupo News Corp pode ser genuinamente nova mídia? Na opinião do site Meio Bit, “Murdoch irá pedir “apenas US$ 0,99 por semana por um jornal que na verdade é uma revista, pois só é atualizado a cada 24 horas. Um jornal que não dá furo e que tem um altíssimo potencial para dar notícias já cansadas de rodar por aí? Como pagar um dólar sequer por notícias potencialmente velhas?”

Já o Huff Post, começou bem, como uma autêntica mídia social, caiu no gosto do público jovem e conectado, até que a Ariana se tornou uma das opinion makers mais influentes da América. Daí a “escorregar” nos mais de USD 300 milhões oferecidos pela canoa furada da AOL foi apenas um passo. Hoje, Ariana é a nova CEO do Huff Post, paga pela AOL e tentando aprender o que é mainstream e como sobreviver no competitivo mundo corporativo americano. Ou seja, a Ariana e o Huff Post viraram mais do mesmo.

Sobrou o good.is, uma brisa de inovação no mundo das mídias (realmente) sociais. O GOOD é uma plataforma de mídia, cujo objetivo é oferecer conteúdos, experiências e serviços públicos para pessoas, empresas, organizações não governamentais e a comunidade, em geral.

Em 2010 o GOOD  iniciou a produção dos GOOD Projects — funcionando como um novo tipo de agência preocupada em apoiar negócios e pessoas, através do engajamento da comunidade na busca de boas idéias. Um bom exemplo desses projetos foi o desafio lançado pelo GOOD em dezembro passado, oferecendo (míseros) USD 500 para o melhor infográfico (se você não sabe o que é isso, leia meu post  “Infográficos, a pintura rupestre do século XXI”) para explicar a crise financeira que se abateu sobre  globo há dois anos. Enquanto não publica o resultado do concurso (o que deve ocorrer no próximo dia 18/03), os melhores infográficos sobre a crise financeira mundial continuam em exposição no site. Vale conferir. São preciosidades imaginação e do design, que nenhum dos garndes jornais do mundo conseguiu produzir. E, pasmem, tudo isso produzido pelos leitores por apenas USD 500. Eu tenho certeza que se não houvesse nenhum prêmio o resultado não seria muito diferente.

Para finalizar, o exemplo mais recente de mídia mainstream que evoliu para social media, é o do Charlie Sheen, o “American nóia” mais famoso do mundo, piradasso e muito engraçado, que vinha bombando há alguns anos com seu sit com “Two and a Half Man”. Cansada das pirações e bebedeiras (para dizer o mínimo) de Sheen, a Warner acabou com o show e o demitiu. Pois bem, enquanto processa a Warner, pedindo USD 100 milhões de indenização, Sheen simplesmente migrou seu show para a Internet. Confira o 1o. episódio do show pós mainstreen do Charlie Sheen, o “Sheen’s Korner” (assim mesmo, com K), cujos capítulos são postados no Youtube, para desespero da Warner.

E esse é o mundo da mídia pós mainstream. Rola grana sim, o mundo corporativo vai continuar suportando financeiramente, só que quem vai direcionar os conteúdos não serão mais as agências, ou o IBOPE, e sim o próprio público. Acorda, mídia velha de guerra, senão cê vai tomar um tombo!

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