Coisas “interessantes”

Fran Papaterra

Vou comprar briga e transformar o um peso e duas medidas em rigorosamente duas medidas. Debatemos, Augusto e eu, sobre o excesso de informação nas diversas ferramentas de internet. Minha posição é que estamos diante do fenômeno feitiço contra o feiticeiro. Em outras palavras, de uma promessa de geradora de tempo livre, a internet acabou por consumir o tempo das pessoas com informações inúteis.

Augusto, ao responder minha provocação anexou um vídeo como um exemplo de como compartilhar coisas interessantes. Quando cliquei no vídeo constatei que ele tem 9 minutos. Façamos a conta. Há quem se orgulhe de ter mais de mil amigos no FaceBook. Não duvido, tendo em vista o que quer dizer amigo para o FaceBook. Mas, digamos que temos cem amigos dignos deste nome e todos plugados, conectados. Um desempenho pífio destes amigos em redes sociais postaria apenas um link por dia de “coisas interessantes”. Vamos reduzir o tempo destes vídeos para 3 minutos, considerando o do Augusto exagerado para ser média. Nossos amigos (mui amigos) me tomariam 300 minutos por dia ou cinco horas por dia com “coisas interessantes”.

Para escrever este post fiz algo que não faço: abri uma sugestão de compartilhamento de um amigo. Tratava-se de uma ponte na Rússia com um pênis (isto mesmo, um pênis) desenhado. Como a ponte é elevadiça, o pênis cresce quando a ponte se abre. É apenas um exemplo, radical, reconheço, porém real. Alguns de vocês devem ter recebido esta imagem.

Minha conclusão é que “coisas interessantes” quer dizer, em geral, “bobagens”. Não posso fazer nada em relação às pessoas que gostam de consumir bobagens. A audiência do Big Brother e a tiragem de Caras que o digam. Mas, isto me afeta pouco. Porém, quando passo a receber pênis gigante pela internet, percebo que sou chamado a consumir bobagens com uma insistência alarmante.

Quem me lê e discorda de mim pode pensar: é só não abrir o link. Então, eu pergunto, se o link não vier acompanhado da mensagem “pênis gigante” e sim com Fulano quer compartilhar um vídeo com você, como saber se é bobagem ou não? Minha decisão é não me arriscar e deletar tudo que venha pelo FaceBook e congêneres,

Vai sobrar tempo para ir ao Museu da Língua Portuguesa e ver a exposição sobre Fernando Pessoa. Prefiro Pessoa a pênis gigante.

Augusto Pinto

O Fran realmente está puxando briga. E eu vou topar, pois no fundo não discordo dele, apesar de discordar frontalmente (!?). Ou seja, não sou a favor, nem contra, muito pelo contrario. Permitam que me explique melhor. Sim, é verdade que a Internet é um mundo imenso, povoado de irrelevâncias, que se misturam a coisas realmente relevantes e nisso eu estou inteiramente de acordo com o Fran. Porém, discordo frontalmente quando ele atribui esta característica exclusivamente à Internet. A Internet nada mais é do que a dimensão virtual do mundo físico em que vivemos. Se o mundo de “tijolos & argamassa” aqui fora muda, essa mudança se reflete imediatamente na Internet.

Nos tempos de meu avô, não preciso nem ir tão longe, nos tempos de meu pai, a triagem de informações relevantes era muito simples. No Brasil, tudo se resumia a dois ou três jornais,  à revista semanal “O Cruzeiro” e a “Manchete”, algumas poucas rádios AM e dois ou três dois canais de TV aberta. Passados pouco mais de cinqüenta anos, são centenas de canais de TV a cabo, dúzias de revistas semanais, de todos os tipos, dezenas de jornais, sem contar os globais, mais os canais públicos de informação (mídias eletrônicas de elevadores, aeroportos, ruas, etc). Dizer que é mais difícil triar as irrelevâncias de conteúdo do Facebook do que do Estadão de domingo é uma inverdade. Como escolher entre as centenas de filmes que são oferecidos nos canais a cabo diariamente? Até ler a sinopse de algumas linhas é time consuming.

Ou seja, meu caro Fran, viver nos tempos atuais se tornou muiiiitoooo mais complexo (e talvez até mais chato) do que no tempo de nossos avós. Somos bombardeados por uma quantidade tal de informações que simplesmente nossos cérebros não conseguem triar e muito menos usufruir. Quantas vezes estamos diante de notícias relevantes, bem embaixo de nossos narizes e que não nos damos conta. Vamos a um exemplo prático. Vocês sabiam que:

  • Quem quiser tirar uma cópia da certidão de nascimento, ou de casamento, não precisa mais ir até um cartório, pegar senha e esperar um tempão na fila. O cartório eletrônico, já está no ar!
  • No caso de multa de trânsito, por infração leve ou média, se você não foi multado pelo mesmo motivo nos últimos 12 meses, não precisa pagar multa. É só ir ao DETRAN e pedir o formulário para converter a infração em advertência com base no Art. 267 do CTB. Levar Xerox da carteira de motorista e a notificação da multa.. Em 30 dias você recebe pelo correio a advertência por escrito. Perde os pontos, mas não paga nada.

Pois bem. Tudo isso saiu nos jornais, mas pouca gente viu. Eu descobri essas informações hoje, graças a Internet. Cabe a nós usá-la bem (thanks ao Google, por nos ajudar nisso), ou abrir e-mails e conteúdos de redes sociais “extremamente relevantes”, recebidos dos “amigos do peito eletrônicos”.

Ponto para o Fran no que diz respeito à irrelevância da maior parte do conteúdo das redes sociais, lembrando que as mesmas não são sinônimo de Internet. Mesmo assim, quando queremos saber se alguma tranqueira, nova recém lançada, presta, não existe nada melhor que dar uma fuçadinha nas redes sociais. Por exemplo, suponha que você esteja em dúvida sobre os prós e contras de comprar um iPad na versão atual. Há 10 anos atrás, você teria que pedir a opinião de um amigo geek, ouvir a opinião “nada tendenciosa” do vendedor, e decidir por sua conta. Hoje, graças à Internet, você gastaria cinco minutos para encontrar os prós e contras sobre o iPad e mais cinco para encontrar avaliações de usuários pioneiros.

Quer mais uma? Se você estiver no trânsito de São Paulo, e cair um daqueles dilúvios diários, entre no Twitter de seu celular e acesse o usuário @alagamentos_sp. Lá vão te informar se tem algum alagamento perto de você. É, ou não é porreta?

E aí, Fran, vai encarar?

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