O Brasileirinho

Vocês provavelmente não conheceram o Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto), um dos cronistas mais divertidos e observadores do quotidiano dos brasileiros. É dele a antológica frase: “Lavar a honra com sangue suja a roupa”. Se você gostou, tem muito mais no lugar de onde esta veio.

Uma de suas crônicas, que eu mais gosto, narra um episódio supostamente ocorrido em um bar carioca. Vou tentar me lembrar, mais ou menos, do texto:

“Aconteceu num café de marinheiros, no cais do porto do Rio. Tinha uma porção de sujeitos, sentados, tomando umas e outras. Havia brasileiros, portugueses, franceses, argelinos, alemães, noruegueses. De repente, um alemão muito forte se  levanta e grita:

– Não tô vendo nenhum homem por aqui.

De imediato,  um turco, tão forte como o alemão, se levanta e pergunta:

– Isso é comigo?

– Pode ser com você também – respondeu o alemão.

Aí então o turco avançou para o alemão, tomou uma porrada e caiu. O alemão repete a provocação. Um português, maior ainda do que o turco, se levanta e também cai de quatro com um murro nas fuças. Assim, sucessivamente, vão caindo o francês, o inglês, o norueguês, o argelino, até que, finalmente, não sobra mais ninguém no bar a ser desafiado, exceto um brasileiro, magrinho, de terno branco, cabelo carregado na brilhantina, bigodinho ralo, que com seu sotaque carioca pergunta como os outros:

– Ixxxto é comigo, ô Mané?

O alemão voltou a dizer que podia ser. Então o brasileiro deu um sorrizinho e veio gingando pra cima do alemão. Parou perto, balançou o corpo e… catapou! Tomou uma porrada tão forte que só foi acordar meia hora depois na cama de sua dama preferida. Moral da história? Não tem moral nenhuma, termina aí, que é pros brasileiros perderem essa mania de pisar macio e pensar que são mais malandros do que os outros.”

Passados 43 anos da morte do Sérgio Porto, a história do brasileirinho continua mais atual que nunca. Continuamos nos julgando os maiores malandros da paróquia. Vide o Lula, nossa versão presidencial do “O Bem Amado”. Você também não viu o “Bem Amado” (não o filme recente, ou a mini-série, mas o original com o Paulo Gracindo)? Minha cena favorita é um discurso de Odorico Paraguaçu, o prefeito que não conseguia inaugurar seu cemitério.

Durante seus últimos 4 anos de mandato, o “Lulinha paz & amor”  nos ofereceu algumas pérolas da cara de pau barroca, muitas delas pra humilhar o Dias Gomes (que inventou o Odorico Paraguaçu) :

  • Numa entrevista coletiva, em 2009, o Lula disse: “Gostaria de passar à história como o primeiro presidente brasileiro que emprestou dinheiro para o FMI. Vocês não acham chique o Brasil emprestar dinheiro para o Fundo e sendo eu o presidente?”
  • Fumante inveterado, que obriga seus visitantes no Planalto a tolerarem suas cigarrilhas, defende, o uso do fumo em qualquer lugar. Afinal, diz nosso ídolo, “só fuma quem é viciado” (!?).
  • Em visita a Cuba, insinua que “o prisioneiro político morreu porque não quis se alimentar”.
  • Para Lula, as democráticas e preocupantes manifestações da oposição iraniana são “queixas de torcida de futebol”.
  • Defendendo seu baixo clero, diz que “o Sarney, presidente do Senado, que já foi presidente da República, não pode ser tratado como um cidadão comum” (ah, não?… e por que?).
  • Sobre o fotografado, gravado e documentado escândalo do mensalão, nosso guru não deixa por menos: “Vocês estão fazendo um cavalo de batalha por algo que nunca existiu. Talvez um caixa dois de campanha, que vem desde os tempos do Dom Pedro II, isso sim pode ter ocorrido”.
  • E aquela que é minha batatada lulistica favorita, sobre Chávez e sua democracia bolivariana: “Na America Latina não existe uma democracia como a venezuelana. Todos os anos há eleições e quando não há o Chávez inventa. Na Venezuela há excesso de democracia.”
  • E, pra se vingar dele, Dona Marisa também nos proporciona uma belíssima abobrinha. Ela expressa, com ênfase, porque é contra um terceiro mandato para Lula: “Não quero saber de reeleição. Eu quero é a reereção!”. Leia mais no “O Sensacionalista”.

Pena que não tem um alemão por aqui pra tacar um tapão no pé da orelha do cara (de pau). Eu poderia passar o dia elencando as merdas que o Lula e muitos políticos brasileiros falam todo o tempo.

Mas, em termos de mancadas, nossos políticos não têm exclusividade. Todos nós, “brasileirinhos, de terno branco, bigodinho e fala macia”, nos julgamos a última bolacha do pacote. Não somos. Quando jogamos lixo pela janela do carro, quando fugimos das reuniões de condomínio, quando nos ausentamos das reuniões da escola de nossos filhos, quando votamos em qualquer cabeça de bagre que possa nos prestar algum serviço, quando subornamos o guarda, quando compramos um recibinho de médico pra atenuar o IR, quando tomamos umas e outras antes de dirigir, quando nos levantamos no avião antes das turbinas desligarem, quando estacionamos no shopping na “vaga do manquinho”, quando fazemos xixi no chão do banheiro público, etc, etc, etc, devemos nos lembrar do brasileirinho. Cedo ou tarde vamos tomar uma porrada do alemão!

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