Santa Claus, reloaded

É tempo de Natal. Já com o saco na lua, pelo trânsito continuamente congestionado, shopping centers inviáveis, inundações diárias e cartão de crédito estourado, me consolo pensando que seria bem pior se eu fosse o Papai Noel.

Nos últimos tempos tenho visto alguns “Papais Noeis” que fariam o velho e bom Santa Claus se virar no túmulo. Vi Papai Noel magrela e desdentado, cheirando cachaça, Papai Noel coçando o saco enquanto olhava a bunda da babá gostosinha, até PapaI Noel dormindo no trono do shopping.

Aí fiquei imaginando como seria a vida de um Papai Noel do século XXI, caso ele ainda estivesse vivo para contar a história.

“Era dia 23 de dezembro e Papai Noel acordou meio puto. O dia anterior fora muito ruim. Seus ajudantes duendes estavam em greve para receber mais horas extras e suas renas estavam velhas, gordas e preguiçosas. Lamentavelmente, a grana estava curta, o cartão de crédito estourado e ele não tinha como alugar um VUC para fazer a distribuição dos presentes.

Para piorar tudo, a Sra Noel não parava de pegar no seu pé com a bebida. Bastava ele abrir uma latinha de cerveja que lá vinha ela com sua cantilena. Para mudar de assunto, Papai Noel perguntou à Sra. Noel sobre a previsão do tempo, esperando pelo pior e desejando que o Natal já tivesse acabado. O aquecimento global resultara em um Natal sem neve (essa história se passa lá no hemisfério norte). A resposta não foi muito diferente do que ele esperava: “Desculpe querido, mas vai chover canivetes!”

Neste ano Papai Noel estava atrasado na separação dos presentes e a preocupação em ser políticamente correto tinha tornado sua tarefa muito difícil e põe difícil nisso.

Nada de bonecas para as meninas, ou armas para os meninos. Nada de doces, ou balas, que possam estragar os dentes das criancinhas.

Nada de presentes com caráter sexista (os pedidos de bonecas infláveis eram muitos e o Papai Noel desconfiava que alguns fossem de pais enrustidos).

Nenhum livro sobre a religião. Não presentear com cola e tintas, por causa da bagunça.

Evitar os quebra-cabeças com peças pequenas que alguma criança possa engasgar e nada muito frágil, que se quebrasse na primeira queda.

Nada de penas, ou peles, nada de couro, pois vivemos num mundo muito mais ecológico.

Nada muito simples, mas também nada muito inteligente que os guris hoje andam meio tapadinhos.

Nada muito violento, ou muito assustador. Nada de bolas e bastões que não possam ferir.

Não às bolinhas, às contas e às pecinhas que a criança possa enfiar no nariz, nas orelhas, ou em algum orifício ainda mais esquisito.

Em resumo, nada que engorde, nada que faça mal à saúde, nada que machuque, nada que excite, ou que encha o saco da criança, e muito menos nada que pegue muito mal para os pais, que obviamente são politicamente corretos e chatésimos.

Que saudades dos tempos em que presente era uma boneca de pano, uma bola, ou um cavalinho de pau. Agora eles sentavam em seu colo no shopping center e pediam um vídeo, um computador, ou uma TV LCD (os mais caras de paus já estão pedindo LED e até 3D). Teve até um carinha de seis anos que pediu um “X-Box 360, com 60 GB de disco rígido e comando cinético”, seja lá o que isso signifique.

Papai Noel estava cansado e de saco cheio. Ele não agüentava mais se  fingir de alegre diante de criancinhas tão chatas. Também estava muito velho para continuar subindo em telhados e entalando em lareiras estreitas. O bom velhinho já não era tão ágil como nos tempos em que namorava a Sra Noel e comia sua amiga.

E ele odiava quando as cartinhas das crianças terminavam com uma recomendação dos pais: “Nenhum animal de estimação, por favor,
pois um filhote de cachorro é para a vida e não apenas para o Natal”. Eles poderiam protestar à vontade, mas o que o pobre Noel faria com os cinco mil Dálmatas que ele encomendara para o Natal???

Apesar de tudo, no final da noite de Natal, e depois de um bruta trabalho, ele conseguiu dar a cada criança a coisa certa. E aí chega o momento que ele espera o ano inteiro. A Sra Noel estava esquiando com as amigas, ninguém em casa para encher seu saco, já que ele teve o bom senso de não ter filhos e, consequentemente, nem netos. É hora de sentar perto da lareira, ligar a TV num filme antigo de Sansão e Dalila, com um grande jarro de cerveja à sua frente e desejar a todos um Feliz Natal e um maravilhoso Ano Novo!”

 

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