Sobre perdas e danos

É provável que a maioria daqueles que lêem esse blog não saibam, mas eu tenho dois netinhos queridos, o Pedro (foto acima comigo e com o pai) e a Vickinha, nome carinhoso que o irmãozinho deu para a caçulinha, Victoria. Falo da Vickinha no presente, porque para sempre ela estará viva em nossos corações.

A Vickinha é nossa estrelinha. Ela iluminou nossas vidas e se foi, de repente, deixando uma buraco enorme nos corações de pais, avós, tios e amigos em geral. Isso ainda é muito recente (menos de uma semana) e ainda dói muito tocar no assunto. E, exatamente porque dói, é que eu preciso botar pra fora o que sinto, numa espécie da catarse.

Na verdade, eu não estou sendo original. A Ju, criou esta semana o “Blog da Vickinha”, com o objetivo não apenas de compartilhar sua escalada desde o fundo do poço até a luz, que ela certamente alcançará num futuro próximo, mas também para ajudar pessoas na mesma situação. Desde então seu blog tem bombado e milhares de pessoas têm compartilhado suas perdas com a Ju, num processo de ajuda mútua.

Neste post, gostaria que testemunhar para vocês a dolorosa, mas ao mesmo tempo rica, experiência de perder um ente querido. Claro está que no dia do velório e enterro ficamos arrasados. A imagem do pai e da mãe, meus queridos filhos, ajoelhados durante todo o dia ao lado do caixãozinho, olhando a Vickinha que ostentava um paradoxal sorrizinho para todos nós, me fez chorar até as lágrimas secarem.

No fim desse doloroso dia, pra piorar frio e chuvisquento, alguém teve a idéia de ir para nossa casa. Reparem: não convidamos ninguém, mas a galera disse que ia e pronto. Chegando em casa, constatei que pelo menos uns cinquenta amigos nos aguardavam. Corri pra padaria mais próxima pra comprar um lanche reforçado. Nem bem cheguei na esquina, minha mulher me chamou de volta. Nossos vizinhos (eu moro num pequeno condomínio horizontal) haviam entrado em nossa casa e preparado uma mesa de banquete, com frutas, pães, frios, canja de galinha, uma loucura. Aquilo foi o primeiro up que a gente teve em nossos sentimentos. Depois, as pessoas permaneceram até tarde, tentando conversar abertamente sobre nossa perda, nos dando sugestões sobre como lidar com ela, enfim apoiando-nos de forma positiva. Naquela noite conseguimos dormir com nossos corações aquecidos.

A manhã seguinte, com minha filha, meu genro e meu netinho em casa conosco, foi o café da manhã mais triste de minha vida. A cada cinco minutos alguém caia no choro. Aí os telefones começaram a tocar, os amigos deles e nossos encheram a casa de novo, o Pedrinho demandou nossa atenção e pouco a pouco fomos percebendo que a melhor forma de enfrentar a dor não é despreza-la e muito menos cultua-la, e sim enfrenta-la.

Eu tirei uma semana de férias para ficar com meus filhos e minha familia e desde então nossa vida tem sido iluminada pela solidariedade e apoio dos parentes e amigos, o que nos tem ajudado muito na superação de nossa dor. Infelizmente, alguns, por pura ingenuidade, tendem a nos tratar com piedade. Tentam evitar o assunto da morte da Vickinha, ou falar da difícil retomada de nossas vidas. Eu sempre achei que o sentimento de piedade é muito cruel. Talvez o segundo pior sentimento, depois da inveja, que alguém possa direcionar a seus semelhantes. A piedade tem um quê de arrogância, pois considera a outra parte menos capaz e nossa antenas captam isso facilmente. A piedade afunda, enquanto o apoio nos ergue.

Se algum amigo, ou parente, de vocês passar pela situação de perda que nós estamos passando, aí vai meu conselho. NÃO TENHAM PENA! Entendam a dor, compartilhem, permitam que o amigo expresse seus sentimentos (chorar é ótimo), mas não se afastem. O consolo está relacionado à proximidade. Nesse momento, as palavras são dispensáveis, mas a presença física e o abraço solidário são o arrimo de quem sofre.

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13 comentários em “Sobre perdas e danos”

  1. Eh isso mesmo, Augusto. A piedade nao combina com a perda de um ente querido e nao ajuda em nada na superacao. Quem esta nesta situacao busca um esclarecimento, uma luz, algo que realmente conforte e ajude a encontrar uma saida ou um entendimento.
    Eu ja perdi algumas pessoas muito queridas e o que mais detestava era ver todos me olhando como se eu fosse uma coitadinha e como se aquele sofrimento nao fosse passar nunca.
    Ok, doi mto e doi por muito tempo. Mas o sofrimento se transforma em aprendizado, em amadurecimento, em evolucao. Eh triste, mto triste, mas infelizmente, a gente evolui e aprende muito mais com a dor do que com o amor.
    Por isso, rezo para que Deus conforte sua familia, especialmente sua filha e seu genro, e ajudem-nos a crescer com esta licao tao dolorosa. Um dia nao vai doer mais desta forma. So restarao as boas lembrancas e a saudade.
    Abs e muita forca pra vcs. Renata

  2. Augusto,

    Eu não consigo mensurar o tamanho da dor que uma perda assim causa, mas quero te deixar um abraço carinhoso nesse momento triste e te desejar muita força e luz. Sei que você, assim como eu, é Kardecista, certo? E essa abordagem pode ajudar considerando um desafio desse tamanho.

    Abraço,

    Cesar

  3. Amigo Augusto,

    Estou surpreso, eu não fiquei sabendo do ocorrido até ler o seu post no blog há pouco. Não tenho palavras para expressar o quanto eu fiquei triste com esta notícia, conte com o meu apoio neste momento difícil.

    Um forte abraço,
    E.Kfouri

  4. Oi, Augusto!

    Acabo de te enviar um e-mail, mas passei por aqui também para deixar um abraço para você e sua família. Vou agora no blog da Ju (que aprendi a chamar assim porque é como você a chama) para entender melhor o que aconteceu e se puder apoiar em alguma coisa, conte conosco.

    Acho que ninguém está preparado para essas situações, nem nós, nem nossos amigos. Talvez quem tenha sofrido alguma perda importante entenda melhor que a piedade não ajuda e não há a frase certa para se dizer.

    Enfim, estamos por aqui.

    Besitos

  5. Essa dor eu ainda não vivi, mas não tenho dúvidas da sua imensa intensidade.
    Acho que pode ser importante lembrar-se que Vickinha está bem. Ela, a maior comprometida neste assunto, está bem.
    Cumpriu o que tinha que cumprir e vocês ajudaram muito com muito amor e carinho nessa rápida (mas com certeza necessária) passagem dela por aqui.
    Que bom que foi com vocês, que bom que foi com tanto amor.
    E ela vai ficar melhor ainda se a vibração continuar sendo a mesma que ela recebia aqui: amor, carinho, alegria. Dor e sofrimento não farão bem a ela neste momento.
    Na teoria é assim, Augusto. Na prática, só que passa por isso é que pode dizer.
    Um forte abraço.

  6. Com certeza meu irmao , essa nossa estrelinha ira brilhar para sempre e o nosso amor aumentara cada vez mais ,voce e uma pessoa iluminada com filhos iluminados , a Ju nem posso falar pois ela e minha afilhada muito amada .Tenho a felicidade de poder conviver com voces nesta encarnacao . Fica aqui o meu mais doce beijo de tantos que eu ja te dei,gostando ou nao ne, mano ? Te amoooooooo de montao

  7. Oi Augusto,

    tenho pensado muito muito muito em vocês, com muito carinho. Não dá mesmo pra imaginar o que é essa dor… mas dá pra admirar a coragem e a força com que vocês estão enfrentando essa fase tão difícil. Com certeza, vocês vão descobrir um amor mais intenso do que jamais imaginaram: são muitos amigos querendo ajudar e, mais do que nunca, voltando pensamentos de carinho e energia positiva pra vocês. Vocês são muitíssimo queridos e isso fica muito evidante em um momento como esse. Estamos com vocês e, pode ter certeza, estamos aprendendo lições lindas sobre sentimentos, família, superação, apoio, amizade, coragem, determinação…

    Um abraço bem forte de quem torce MUITO por vocês!

    Fla e Ale

  8. Augusto creio assim como vc, que conseguimos superar a dor quando temos força para encará-la e mostrar a ela que somos capazes de dominá-la e não ao contrário. Certamente, só chegamos a esse ponto quando nos sentimos a vontade para expurgar todo e qualquer sentimento que a dor nos traz, e para isso, precisamos de pessoas, ombros e ouvidos amigos, que mesmo impotentes perante nossa dor, não nos emane piedade e sim apoio para continuarmos.

    As perdas nos tira algo, mas nos entrega também. A dor passa, a saudade fica e as pessoas nos acompanham. Sem dúvida, colocar a dor em um megafone é o remédio mais eficaz, e ao contrário do que pensa a maioria, o tabu de falar sobre o desligamento do corpo não é um antídoto e sim um veneno.

    abs
    Rita

  9. Oi Augusto,

    Sempre gostei de dividir: dividir conquistas, bons sentimentos, dividir a dor. Acho que este é o caminho. Não consigo imaginar a dor de vocês, mas acredito que a energia positiva que vem da fé e dos amigos estão mantendo vocês fortes neste momento tão difícil.

    Um grande abraço,

    Cris

  10. Augusto,

    você classificou seu post como “uma espécie de catarse”.
    Modéstia de sua parte. É muito mais que isso, amigo.
    É um exemplo para os que vivem se lamentando a cada obstáculo que a vida nos impõe.
    É uma demostração de amor incondicional.
    É uma manisfestação de fé.

    Forte abraço e muito obrigado por suas palavras.
    Guima

  11. Augusto,
    Desde que soube a triste notícia não paro de pensar em vcs,no meio de tamanha Dor minha admiração e aprendi-
    zado é cada vez maior por toda família.
    Acredito que Deus esteja dando esta força ou melhor Ele
    esta carregando a todos no colo.Quero que vc saiba que pode contar com nosso apoio sempre.
    Um grande abraço e fiquem com DEUS!!!

    Teresa e Farid

  12. Querido Augusto e familia,

    Neste momento de tristeza e perda, continuo unida a voce e toda sua familia na dor da ausência da Vickinha.

    Mas na verdade ela está em outra esfera, linda, sorridente, alegre e feliz porque continua sendo mais um anjo de Deus.

    Que Deus dê a voce todos suas bençãos para o entendimento e aceitação da breve passagem dela em suas vidas.

    Fiquem em paz e com Deus,

    Um grande abraço da Aurora

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