Sherlock Holmes e a web semântica

Não é samba do crioulo doido, não. De fato, a web semântica tem tudo a ver com  Sherlock Holmes (obviamente o Sherlock não sabia disso). Sherlock Holmes se apresentava a sua clientela como um detetive consultor (?!).
Vamos começar com a definição da Wikipédia para a web semântica, ou como outros preferem, web 3.0., que tem como finalidade conseguir atribuir um significado (sentido) aos conteúdos publicados na Internet, de modo que seja perceptível tanto pelo humano como pelo computador. E como isso é feito? Através de metadados, que são dados sobre outros dados. Os metadados facilitam o entendimento dos relacionamentos e a utilidade das informações dos dados na formação de silogismos. Que merda é essa?

A web semântica é uma máquina de inferência, baseada na criação de silogismos. Um silogismo é uma forma de lógica, inicialmente descrita por Aristóteles (em sua obra “O Organon”), para quem uma vez que certos fatos sejam afirmados, outras afirmações serão conseqüências naturais. O exemplo clássico do silogismo de Aristóteles é:

  • Humanos são mortais.
  • Os gregos são humanos.
  • Portanto, os gregos são mortais.

E que diabo o Sherlock tem a ver com isso? Tem tudo. Quem grandemente popularizou esse tipo de lógica indutiva foi Sir Arthur Conan Doyle, cujas histórias de Sherlock Holmes fizeram mais estragos ao entendimento da inteligência humana do que o racionalismo (o todo é a soma das partes) de Rene Descartes. Sherlock convenceu a nós leitores que pessoas inteligentes sempre chegam a conclusões brilhantes, simplesmente eliminando possibilidades. Em outras palavras, Doyle sugere que, “se você eliminou o que é impossível, o que sobra será a verdade”.

Um bom exemplo do silogismo indutivo, típico de Sherlock Holmes, poderia ser o seguinte:
CONTEXTO:

  • Ocorreu um roubo.
  • O criminoso (ou os criminosos) fugiu/fugiram num carro.
  • A Scotland Yard decide interrogar 3 suspeitos: Andy, Bill e Carl.
  • Fatos relevantes:
    • No roubo não está implicada nenhuma outra pessoa salvo A, B o C.
    • C nunca trabalha sem levar a A (e eventualmente a outros) como cúmplice.
    • B não sabe dirigir.

SILOGISMO INDUTIVO:

  • Suponhamos que A seja inocente.
  • Dado que C nunca trabalha sem A, se A é inocente, então C também deve ser inocente.
  • Dado que o criminoso fugiu de carro e B não sabe dirigir, então B não pode  cometer o roubo sozinho: teve que ir ou com A, ou com C.
  • Então se A e C são inocentes, B étambém inocente.
  • Então, se A é inocente, concluímos que B e C são também inocentes.
  • Mas sabemos que um deles é culpado.
  • Portanto, A não pode ser inocente.
  • Consequentemente, os 3 são culpados (C porque acompanha A e B porque não dirige sózinho).

Mas, como nem tudo são flores, o silogismo pode frequentemente induzir a erros, como demonstra o exemplo abaixo (de onde este veio há outros interessantes):

  • Beber álcool mata os neurônios.
  • Os neurônios que morrem são os mais débeis.
  • Se morrem os mais débeis, sobram os mais fortes e inteligentes.
  • Conclusão: quanto mais álcool bebo mais inteligente fico (!?).

A dedução está obviamente errada, mas o erro não está de forma alguma explícito nos argumentos. Não há simplesmente uma forma de claramente separar fatos de mitos, o que é sempre uma armadilha sutil.

As pessoas que estão trabalhando no desenvolvimento da web semântica tendem a superestimar o valor dedutivo dos silogismos. No exemplo acima, cada argumento é verdadeiro, mas cada um deles no seu próprio contexto. “Qualquer tentativa de fazer um cross check de um argumento contra uma biblioteca de contextualizações possíveis pode resultar em outras falhas de lógica, em cadeia, que conduzirão o sistema a falhar por uma questão de escala” (o que é brilhantemente demonstrado por Clay Shirky em seu white paper sobre “A Web Semântica e o Silogismo).

Minha proposta de silogismo para hoje (pra encerrar esse papo furado) é:

  • Botafogo e Santos são alvinegros, campeões em seus estados.
  • O Flamengo perdeu o campeonato para um alvinegro.
  • O Corinthians também é alvi-negro.
  • Portanto, o Corinthians ganha do Flamengo amanhã na Libertadores.

Faz sentido?

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2 opiniões sobre “Sherlock Holmes e a web semântica”

  1. PUTA QUE DEMAIS AUGUSTO! Este texto você matou a pau, na boa! Sem dúvida o melhor post que li nas últimas semanas!

    Faz todo sentido, principalmente: “cada argumento é verdadeiro, mas cada um deles no seu próprio contexto..”

    Essa é a base da mecânica quântica!

    Parabéns e keep them coming!

    Abraços!

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