Tiozinhos

Outro dia eu li uma entrevista com o Caetano Veloso, onde ele se declarava estar entrando na “infância da velhice” (ele tem 67 anos). Eu, que não sou tão velho quanto o Caetano, mas estou me aproximando, prefiro a definição do Mário Prata e me considero um “evelhescente”. O Mário explica exatamente como a gente se sente entre os 45 e 60 anos. A gente se sente bem, principalmente quando dá sorte, como eu dei (thanks God) de chegar lá relativamente inteiro, trabalhando, com saúde, de bem com a família, de bem com os amigos, enfim, de bem com a vida.

No meu caso, faço esportes 6 vezes por semana, saio para jantar, teatro, cinema, etc, no mínimo 3 vezes por semana, trabalho ativamente, leio muito, acompanho o futebol (que adoro), degusto meus vinhos com os amigos amiúde (amiúde é coisa de velho), escrevo em meus blogs, no Twitter, viajo por lazer mais de uma vez por ano e, de quebra, ainda me sobra tempo para mimar os netos. Ou seja, sou um desses idosos sem nenhuma reclamação séria para fazer, pelo menos até aqui. Portanto, ainda não tive tempo para pensar na idade que tenho.

Conversando sobre isso com um amigo, ele comentou:
–    Ah, mas está tudo bem, já que você não aparenta a idade que tem…
Ao que eu respondi:
–    É verdade, mas isso não diminui minha idade.

Imagino que vocês aí, franguinhos de 30, 40, 50, ou mais anos se perguntarão: mas se você não age como velho, não se sente velho, nem parece velho, por que está preocupado com isso? Na verdade, preocupado não estou, mas como a terceira idade nos aproxima, inevitavelmente, de doenças e da morte, não há como não pensar nisso.

Surge então uma ansiedade juvenil (daí a perfeita definição do Mário Prata) de viver a vida em grandes e afobados goles. Isso explica porque alguns de nós velhotes nos casamos de novo com “garotas” de 40, ou menos (o “Pergunte ao Urso” bem que tentou explicar porque as mocinhas topam), queremos dirigir um carro esporte e às vezes nos vestimos como se tivéssemos 20. Tudo isso é ansiedade, afobação, temperados por um pitadinha de orgulho ferido (oh, mundo à minha volta, se liga aí, eu ainda não sou velho).

Nessa nossa tentativa insana, de tentar fazer o relógio andar para trás, existe uma variável que impede a equação de fechar: os mais jovens não nos levam a sério. Sim porque a juventude, em sua arrogância natural, e até um pouco charmosa, discrimina sem parar para pensar.

Um velhote que solta a franga na pista de uma festa de casamento (vira e mexe eu pago esse mico) é confundido com bêbado. Um velhote, que como eu curte correr na rua e disputar provas, é considerado um “sem noção” (vai morrer atropelado, ou de ataque cardíaco, quando na verdade é exatamente o oposto). Um velhote ativo no trabalho tem suas opiniões discriminadas e gasta o dobro do tempo que alguém de 30, para convencer seus interlocutores. Um velhote que curta conviver com jovens, para aprender coisas novas com eles, será considerado um “mala”. E por aí vai.

O que fazer a respeito? Se entregar, se aposentar, sentar numa cadeira de jardim e ficar ouvindo a grama crescer, ou disputar seu lugar ao sol, a tapa, com a galerinha mais jovem? Não me cabe dar conselhos. Essa decisão é muito pessoal. O que eu posso constatar é que a maioria de meus amigos já jogaram a toalha e pararam de brigar com o mundo. Quanto a mim, até que meu motor funda, eu vou estar brigando, pau a pau, pela pole position!

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