Sinal dos tempos

Hoje li uma notícia no Estadão, típica de página policial, mas que foi publicada no caderno de esportes: ”Febre das figurinhas seduz até ladrões”. A matéria conta o roubo de uma distribuidora no ABC, de onde os ladrões surrupiaram 675 mil cromos para, segundo o reporter, vender com ágio (de até 4 vezes) aos colecionadores. A mesma matéria recomenda aos jornaleiros levar os estoques de cromos para casa à noite (?!). Talvez eu seja meio exagerado, mas tudo isso me parece mais grave do que o caso do vulcãozinho que parou a Europa! By the way, existe coisa mais subdesenvolvida do que discutir a pronúncia do nome da porra do vulcão em pleno Jornal Nacional?

No meu tempo a gente comprava as figurinhas (falar cromo era coisa de veado) com uma sobrinha de mesada e, mesmo assim, tinha que esconder o album no guarda-roupas para que nossos pais não jogassem fora. Colecionar figurinhas estragava os dentes! Como é que é? É isso mesmo que você entendeu. Nas Copas da minha infância (58 e 62) as figurinhas eram vendidas dentros de balinhas vagabundas (as Balas Futebol, pois foi só em 62 que a Editora Vecchi lançou os cromos como hoje conhecemos). Aí a gente passava o dia todo chupando balas para conseguir a figurinha faltante.

Mas como a grana para as balinhas era curta e o patrulhamento dos pais grande, só nos restava trocar figurinhas. Na época de Copa do Mundo a saída da escola era um tumulto. Mamãe buscar a gente na escola era mico. Voltávamos sózinhos, a pé ou de ônibus. Daí que, sem ninguém para nos puxar na saída, ficávamos jogando bafo (não vou explicar isso para quem não sabe o que é) com as figurinhas para tentar conseguir, sem custo (a não ser a bronca pelo atraso no almoço), a figurinha do ídolo que nos faltava.

O gozado é que a gente jogava até fazer bolhas nas mãos e ninguém conseguia completar sua coleção. Aí, depois de ser tapeado até quase o dia da final da Copa, a gente descobria que a editora malandramente não imprimia alguns craques para que a gente continuasse comprando. Me lembro que em 62 completei todo o album, menos uma figurinha: a do Zagalo (até então com um L só). Resolvi fazer uma enquete na escola e descobri que ninguém tinha o Zagalo (acho que nesse dia caiu a ficha que o Brasil era mesmo o país da sacanagem). Puto da vida, joguei o album no fundo da gaveta, até depois da Copa.

Passada a Copa, sobravam figurinhas e não nos restava outra alternativa a não ser continuar jogando bafo. Aí, para minha surpresa, sobrava Zagalo, pois no dia seguinte em que o Mauro  Ramos, um homem honrado, ergueu a taça de campeão do mundo, a editora inundou o mercado com todas as figurinhas que tinha represado durante meses. Todos nós completamos nossos álbuns, quase que instantâneamente, mas sem nenhuma graça. Acho que foi daí que nasceu minha bronca com o Velho Lobo, que além de perna de pau, era um desmancha-prazer.

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