Cidadania & Sustentabilidade

Eis uma foto do Brasil do século XXI: jovem, pujante economicamente, líder dentre os países emergentes, idealista e até um pouco ingênuo (vide as trapalhadas do Lula com o Ahmadinejad, Zelaya e Chávez). Trata-se de uma visão positiva, que abre as portas da comunidade mundial e que coloca o país nas manchetes (capa da The Economist de duas semanas atrás).

Porém, por trás dessa visão otimista encontramos um gigante ainda dormindo em berço esplêndido e quem acha que já superamos a fase do “vôo da galinha” pode ter uma triste decepção logo ali adiante. Hoje convivem por aqui duas gerações: a geração do pós guerra, que construiu o Brasil atual e a geração “Y”, da garotada saindo das universidades, cheia de idealismo, de expectativas e demandas. Ambas as gerações amam o Brasil, mas têm suas restrições, embora por diferentes razões.

A minha geração, a geração do pós-guerra, é frustrada pelo desprezo à sua cidadania (em sintese, é o direito de ter direitos); arrisco dizer que alguns até já jogaram a toalha. Sabemos que não há muito que se esperar das várias instâncias de governo, da justiça, das instituições públicas em geral. O governo te deve e paga em precatórios irrecebíveis. O Kassab aumenta o IPTU em 600% e você que vá reclamar para o bispo (mesmo que esse tenha sido seu discurso de campanha contra a Marta). Tem um buraco na sua rua, ameaçando engulir um carro e quando você reclama no SAC da prefeitura prometem resolver rapidinho, em até 40 dias” (caso real acontecendo comigo hoje), nesse caso só te restando reclamar para a CBN, ou Band News. O Sarney nos assalta às escâncaras, o Estadão é censurado, sorry… não tem mesmo para quem reclamar. Tudo isso nos torna cidadãos de terceira categoria e um bando de frustrados.

As demandas da nova geração são de outra ordem. Jovens e idealistas, querem ver um mundo bem melhor 30 anos à frente. Meu filho acha que o Brasil de 2010 não é amplamente sustentável. Sustentabilidade é um termo muito em voga na ecologia, mas cujo sentido amplo se aplica a todos os aspectos do convívio social, através de atitudes sustentáveis. Se aplica ao âmbito político, econômico, às estratégias de desenvolvimento, às parcerias regionais que um pais deve costurar para garantir seu lugar à mesa dos grandes. Tudo que cria “esqueletos no armário” para as gerações futuras, dos problemas ambientais à falta de marcos regulatórios, não é sustentável. Nesse sentido, a geração “Y” não vê como sustentável a parceria com o Zelaya, a destruição da Amazônia, os impostos escorchantes, a falência da previdência pública, o sistema político não representativo e por aí vai.

Se eu tivesse que escolher entre minhas frustrações e as de meu filho, eu diria que ele tem uma visão mais estratégica do que a minha. Ou seja, para resolver as questões de cidadania é preciso resolver antes as questões de sustentabilidade a longo prazo das ações que estamos tomando hoje. Se a questão da representatividade política for resolvida, não surgirá no futuro um novo Kassab para aumentar nosso IPTU em 600%. Ou seja, meu filho enxerga mais longe que eu.

As eleições estão chegando. O que devemos demandar do nosso futuro presidente? De imediato algumas questões de cidadania devem ser resolvidas, como por exemplo a “injustiça da justiça brasileira”. A impunidade tem que acabar e todos os cidadãos devem se tornar realmente iguais perante a lei.

Mas, acima de tudo, nosso novo presidente deve começar a desenhar as bases de um Brasil sustentável a longo prazo. Por onde começar? Isso não é tão relevante. Mais importante é criar um pacto social que permita aprovar uma série de medidas de sustentabilidade, para resgatar nossa imagem nos anos porvir. As reformas estruturais tão desejadas terão que ser feitas (política, tributária, previdenciária, trabalhista), instituições que guardam nossos direitos devem ser reforçadas (agencias e órgãos reguladores, TCU’s, as várias instancias da justiça) e prioridades para os investimentos maiores devem ser definidas (saúde, saneamento, educação, pesquisa e inovação).

O pior é que se não começarmos já na escolha bem feita do próximo presidente, daqui a alguns anos nossos filhos estarão frustrados e pensando sobre as chances dos nossos netos saírem do atoleiro, atoleiro esse que criamos em 1808, quando da vinda do Dom João VI para o Brasil…

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Uma consideração sobre “Cidadania & Sustentabilidade”

  1. Olá Augusto,

    Meu WordPress me avisou que você tinha citado meu site e eu vim aqui conferir e agradecer, e me deparo com este post magnífico.

    São sábias as suas palavras. E você conseguiu enxergar que a sustentabilidade é algo além da defesa do meio ambiente, coisa que muitos não percebem.

    Infelizmente eu tenho que concordar com você que o nosso país se encontra em uma situação crítica, e a política está cada dia pior. Mas não podemos nos deixar abalar, pois no momento que desistirmos eles ganharão. “Tudo necessário para que o mal triunfe é apenas que o bons não façam nada”.

    Continuemos na luta, na esperança de um futuro melhor. Pois se cada um fizer a sua parte as mudanças não são tão impossíveis.

    Um abraço amigo,

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