O ateu e o naturalista

Eu tenho um mau hábito, que vou confessar aqui para vocês: adoro ouvir as conversas à minha volta. No último fim de semana eu estava na praia, lendo meu jornal, quando no guarda-sol ao lado capto um papo cabeça entre dois gorduchos de caipirinha na mão, um ateu e um naturalista. Continuei fingindo ler meu jornal, mas imediatamente sintonizei minhas antenas na conversa dos dois.

A: Cara, a cada dia que passa, diante das atrocidades deste mundo, mais ateu convicto eu me torno!

N: Mas você não acredita em nada, mesmo? Tipo, morreu, apodreceu, acabou, escuridão total pra sempre?!

A: É isso aí. E é por essa razão que eu não dou a mínima para minha taxa de colesterol e me faço de surdo quando minha mulher me dá uma bronca quando eu me sirvo do 5o. whisky. A vida é curta, aqui e agora e eu procuro aproveitar ao máximo cada momento.

N: Oh, brother, eu não acredito nessa merda toda que você está falando. Acho que é tudo uma questão semântica. Garanto que você acredita em Deus; só não sabe disso.

A: Se você me convencer de que Deus existe, a próxima caipirinha é por minha conta.

N: Então separe a grana. Você acredita na natureza?

A: Claro, mas o que tem isso a ver com Deus…? Natureza é árvore, passarinho, rio, tudo isso é coisa que também que também tem prazo de validade e que quando acaba some, que nem a gente.

N: Mais, ou menos. Vamos nos aprofundar um pouco mais. Você acha que a natureza é inteligente? Pense na maneira como as árvores direcionam suas copas para o sol, ou como os animais cuidam de suas crias, ou como eles buscam alimentos, ou ainda sobre a lógica das marés, das estações do ano, das fases da Lua, etc,…

A: Quanto a isso não resta dúvida. A natureza é de fato inteligente.

N: Indo além. Você não acha que a natureza é boa por natureza? Ou seja, não há maldade na escala alimentar, animais não matam por esporte, o rio não nega sua água a quem tem sede, as árvores não negam seus frutos a quem tem fome, o cachorro que a gente chutou de manhã vem nos lamebr a mão pela tarde,…

A: Faz sentido.

N: Ousando um pouquinho mais, não te parece que a naturezaé eterna? O parque de Yellowstone renasceu ainda mais lindo do que antes após um incêncio que o destruiu, as florestas da montanhas em torno da Cosipa ressurgiram tão logo a poluição foi controlada, as plantas renascem através da plantação de suas sementes, inteligência e o aprendizado dos animais é transmitido de uma geração para outra de uma forma quase mágica. Até o Lavoisier provou através de uma lei física que “na natureza nada se cria, nada se destrói, tudo se transforma”.

A: Agora, você forçou um pouco, mas vou engolir…

N: A natureza também é justa. Ela não discrimina fracos e fortes, feios e bonitos, ricos ou pobres. Todos tem chances iguais de sobrevivência. A natureza alimenta e cuida dos leões, como dos pássaros e até de uma simples minhoca…

A: (Coçando a cabeça) É verdade…

N: Pois bem, os atributos da divindade são também a INTELIGÊNCIA, a BONDADE, a ETERNIDADE e a JUSTIÇA. Logo, se você quiser pode apelidar Deus de Natureza, que ele não vai ficar bravo.

A: Cara, tudo isso é papo furado, mas vamos até a barraca da caipirinha, que hoje é por minha conta.

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