Pastel de vento

Quem de vocês nunca comeu pastel numa daquelas pastelarias “pé de chinelo”, que quando você dá a primeira mordida se arrisca a pegar um resfriado? Eu pergunto: se vocês soubessem de antemão que o pastel era recheado de vento ainda assim comprariam, e o que é pior, comeriam? Claro que não, mas como é que a gente adivinha se tem recheio dentro de um pastel, ou não??? Só o Super-Homem, com sua visão de raios X…

Quando a gente lê notícias na mídia impressa se passa algo parecido. Como no caso do pastel, o que nos atrai é a casquinha crocante, que na linguagem de imprensa se denomina headline. Um headline criativo nos induz a ler uma matéria, supondo que vamos encontrar dentro algum conteúdo de nosso interesse. Fazendo um parênteses, me lembro de um headline ultra-criativo da Notícias Populares (aquele jornalzinho que, quando a gente aperta na mão, não mancha de preto e sim de vermelho): “Cachorro faz mal à moça”. Aos 20 e poucos anos quando eu li esse título na banca não resisti e comprei o jornal (juro que foi a única vez). Aí, lá dentro, na página cinco, a notícia era melhor explicada: “Moça come cachorro quente com salsicha estragada e passa mal”…. pô, então era isso???

Muitas vezes a gente entra nesse tipo de roubada lendo matérias sérias nos principais veículos da mídia brasileira (e mundial). Não quer dizer que o autor tenha sido malicioso, como o da Notícias Populares, apenas que cada jornalista tem uma visão de como conectar o headline ao corpo da matéria. A esse tipo de frustração eu denomino irrelevância de conteúdo. Todo e qualquer conteúdo é relevante para alguém, mas eu só me interesso por aquilo que é relevante para mim. E como descobrir se uma matéria, as vezes longa, tem alguma relevância para mim? Nas matérias impressas isso é muito difícil, exceto em revistas especializadas (tipo Harvard Business Review), onde toda matéria é precedida de um sumário executivo. A HSM usa o mesmo tipo de técnica no Brasil. Mas, imensa maioria das mídias impressas não se dá esse trabalho.

Por essas e outras é que a mídia caminha a passos de gigante em direção à oferta dos conteúdos online, via Internet. Na Internet, cada vez mais, todo conteúdo é sustentado por um contexto, que explicita a relevância. Imaginemos a matéria do “cachrorro” publicada num blog, ou num site de notícias. Diferentemente do jornal, o leitor online não começa a leitura aleatoriamente pela capa. Buscamos pelo tipo de notícia especifico que nos interessa. Se meu estilo é sangrento, eu digito no box de search “: notícias policiais”. Aí a matéria da “moça do cachorro” não é mostrada, porque é quotidiano e não policial. Se você entrar no UOL, ou no Terra, ou no Globo.com, vai perceber que os headlines mudam várias vezes ao longo do dia e nós, sabedores disso, não damos muita pelota para eles.

Finalmente, quando chegamos até a matéria de nosso interesse, um rico conteúdo multi-mídia (coleção fotos, vídeos, links para conteúdos correlatos) nos oferece a possibilidade de rapidamente contextualizar aquilo que vamos ler (ou não), antes sequer olharmos a primeira linha do corpo do texto.

A meu ver, a dupla dinâmica conteúdo e relevância (que tem muito a ver com a chamada web 2.0) será a mola propulsora da mudança radical pela qual a mídia, em geral, vai passar. E como essa dupla nada de braçada na mídia online, mas se debate no areal seco da mídia impressa, é provável que a última tenda a ceder a primazia do leitor à primeira. CQD (pra quem não lembra das aulinhas de geometria, COMO QUERIAMOS DEMONSTRAR).


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