Um turista acidental em Portugal (2. Indo pro céu com a Maria do Céu)

Um dia de viagem muito maluco!

Após três dias em Lisboa a gente sente que está na hora de vazar. Acordamos cedinho, pois sabiamos que o dia seria saboroso, mas longo. Nosso destino final seria o resort Aquapura Douro Valley, no coração do Douro. O ponto alto do dia seria um almoço no restaurante do Chico Elias, na cidadezinha de Tomar, a meio caminho entre Lisboa e Fátima. Apesar do GPS português, chegar até Tomar e ao restaurante do Chico Elias não foi lá tão difícil.

A cidadezinha de Tomar é uma dessas graciosas aldeias do interior português, que apesar de minúscula oferece todos os confortos a que os europeus estão habituados. Seu Chico Elias veio a Tomar em lua de mel com Dona Maria do Céu. Se apaixonou pelo lugar, como já se apaixonara pela Dona Maria do Céu, e lá foi ficando. O que de início era uma tasca com objetivo de servir vinho para os aldeões no final da tarde, se transformou pouco a pouco em um refinado restaurante de pratos típicos da cozinha regional portuguesa. Quem cozinha é a própria dona Maria do Céu e quem serve as mesas é sua filha. Para comer por lá não apenas é necessario reservar, como também escolher os pratos a priori. Parece um exagero, mas não é, pois literalmente dona Maria do Céu cozinha especialmente para cada cliente que visita sua casa.

Os pratos fortes desse restaurantezinho são a feijoada de caracois (uma espécie de cassoulet de escargots), pitingas ao forno (sardinhas assadas, crocantes, pra comer inteiras), bacalhau ao forno com carne de porco, cabrito ao forno (o melhor que já comi), pato com migas e no capítulo sobremesas vale testar as peras bebadas (cozidas no vinho e aguardente). As sobremesas típicas portugueses (à base de ovos), em geral, são imperdíveis. Sem mêdo de errar, foi uma das refeições mais requintadas de minha vida. Enquanto comia e babava, pelo canto dos olhos vi que que Seu Chico (no caixa) e Dona Maria (na cozinha) estavam curiosíssimos com a gente. Na hora de pagar fui até o Seu Chico para conhecê-lo. Não me lembro do valor da conta, mas digamos que tenha sido R$ 100,03. Eu propus pagar 10% de serviço, o que deixou Seu Chico revoltado: “Oh, rapaz, aqui não tem serviço não, pois quem serve a mesa é minha filha”. Seu Chico não aceita cartão de crédito. Para pagar com dinheiro faltavam 3 centavos, que obviamente eu supus que seriam desprezados. Entreguei uma nota de 100 para o Seu João, que ficou me olhando com cara de “não entendi”. Tive que puxar mais uma nota de 50 para pagar 3 centavos!? Na despedida não resistimos e sacamos várias fotos com a Dona Maria e seu Chico na sua própria cozinha. Seu Chico é “altão”, coisa de 1,50 m, e Dona Maria um pouco mais baixinha (eu tenho 1,72 m; veja na foto a altura da Dona Maria comparada com a minha). Os dois são uma graça e que for a Portugal não pode deixar de visitá-los.

No caminho para Fátima resolvi usar o fio dental para me livrar do último pedacinho do delicioso almoço da Dona Maria do Céu. Foi minha primeira (e última) experiência com o fio dental português. Na primeira passada o danado do fio enroscou sem saída entre dois molares apertados. Paramos o carro para resolver o problema. As tentativas de retirar o fio, com a ajuda de minha mulher (vide foto), foram desastrosas. O fio arrebentou e eu fiquei com a sensação de ter uma tora atravessada entre os dentes. O pessoal queria que eu deixasse pra lá, mas deixei claro que não dava para conviver com um fio dental entalado até voltar para o Brasil. Como estavamos indo para Fátima, pedi ajuda pra santa. Vocês vão achar que estou mentindo, mas quando olhei pela janela do carro, do outro lado da rua eu leio numa placa: Dra Marcia Nakanda, cirurgiã dentista. Sem pensar sai correndo até o consultório da Dra Marcia. Fui muito bem atendido e sua assistente aceitou me encaixar entre dois clientes, para o complexo procedimento de retirada do fio. Quando a Dra Marcia, às gargalhadas, me contou que eu era sua milésima vítima do fio dental português, percebi que ela era brasileira. O fio dental levou 30 segundos pra retirar, mas aí a gente agarrou num papo sobre Brasil, até que sua assistente literalmente me expulsou do consultório. Definitivamente foi a santa que colocou a Dra Marcia em meu caminho.

O dia ainda se prolongou com uma visita ao santuário de Fátima (espetacular e emocionante), terminando com uma dramática chagada ao Douro tarde da noite. A região do Hotel Aquapura fica num enclave de várias aldeias de montanha, para recordar alguns nomes, Pinhão, Armamar, Peso da Régua e Lamego. Eu já tinha sido avisado para não chegar à noite, mas não obedeci. Pagamos por isso. Cruzamos as quatro cidadezinhas, algumas vezes, sem achar nosso destino. Quando jogamos a toalha, parei em frente à estação de Peso da Régua e esperei para que a van do hotel humilhantemente nos resgatasse. E daí pra frente foi o paraíso. Mas isso é história para a próxima blogada.

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3 opiniões sobre “Um turista acidental em Portugal (2. Indo pro céu com a Maria do Céu)”

  1. A Santa não faz assim milagres dessa natureza não Sr Augusto,,,,foi o ímã tupiniquim que não arreda o pé do nosso sangue brasileiro (apesar da cara de bairro da Liberdade,,rsrsr,,,
    obrigada por me mandar a tua pródiga viagem,,,e nós aqui aguardamos anciosos pela vossa próxima vinda à terra Santa,,,eu de N S de Fátima,,,mas traga fio dental brasileiro desta vez,,,rsrsrs
    um abraço a todos e a esse país abençoado por Deus e bonito por natureza

  2. Augusto, realmente lendo os seus comentários e dicas tenho me deliciado (e babado!!!). Parece que estou lendo as cronicas/contos do Verissimo. E aí já vai a sugestão: selecione, junte todas e prepare seu segundo livro de coletâneas (talvez patrocinado pelos citados e envolvidos…).
    Valeu!! Abraços e até nossa próxima eno-gastronomia. Rapha.

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