Um turista acidental em Portugal (1. Lisboa e portuguesadas)

A estranha, mas linear, lógica dos portugueses

Vocês devem ter visto o filme “Turista Acidental”, com o William Hurt. Eu adorei esse filme, que mostrava um personagem trash, sempre emburrado e meio de saco cheio, tendo que visitar os lugares mais lindos do mundo, com tudo pago, para escrever artigos para uma revista de viagem. Nesta viagem a Portugal acho que sou um pouco um turista acidental, pois eu não estava prevendo viajar (foi uma coisa de impulso para acompanhar minha filha e meu genro).

Minha viagem compreendeu Lisboa, Douro e Porto, subindo o país em oito dias a bordo de uma Range Rover Sport. Iniciamos por Lisboa, que eu já conhecia de viagem recente. Redescobrir Lisboa com minha familia foi algo realmente muito divertido. Como nós só pegamos o carro para viajar, em Lisboa usamos muito os táxis. Atraves dos taxistas começamos a perceber (amigos portuguêses me perdoem) que essa história de português burro é coisa de brasileiro que não entende a mente dos patrícios. Os portuguêses têm uma lógica perfeita, mas ela é simples e linear, não admitindo as ironias e tortuosidades de que o brasileiro tanto gosta (sacanagem é nossa especialidade).

Abaixo alguns exemplos da hilária, mas perfeita lógica portuguêsa. Tudo isso realmente se passou comigo nessa semana:

  • Motorista de táxi:
    “Como vai? Tudo bem?”
    Resposta: “Vou mal!” (Mas é claro; é domingo e o cara está trabalhando!)
  • Motorista de táxi:
    “Coloque seu cinto de segurança!”
    E eu pergunto: “Por que você não coloca o seu?”
    Resposta: “Porque isso é problema meu.”
    Explicacao. O cara não estava sendo mal educado. Existe uma lei em Portugal que obriga ao próprio passageiro a pagar a multa pelo não uso do cinto. No caso do motorista a lei varia em função da velocidade do carro e não é sempre que eles usam. Conclusão: o cara estava preocupado comigo.
  • Na loja:
    “Aqui tem cartão de crédito?”
    Resposta: “Não, mas eu aceito o seu.”
  • Escolhendo a cor da camisa:
    “Tens em branco?”
    “Branco nao tem”.
    “E tens marron?”
    “Marron tem, mas não há.”
    Explicacao: o produto não existe em branco, existe em marron, mas não tem em estoque.
  • Teleatendimento da TAP:
    “Para reservas digite 1 e para confirmações digite 2”
    Eu digito 2. A resposta: “A TAP não requer confirmacoes.”
  • O GPS português:
    “Daqui a 500 ms continue em frente”
    “Faça a curva ligeiramente à sua direita.” A curva de 90 graus me surpreende (o GPS queria dizer, faça a curva ligeiro porque ela está perto).

Para quem nunca foi a Lisboa, lá tudo rola entre a maravilhosa Praça Marques de Pombal e a Praça do Rocio. Ligando as duas está a Av da Liberdade, larga e arborizada, lembrando um pouco a Av Nove de Julio de Buenos Aires. Ela é sinônimo de elegância, moda e movimento… uma veia viva que faz a ligação entre a Praça do Marquês de Pombal e a baixa de Lisboa. Como os hoteis estão para o lado da Marques de Pombal, vale descer a pé, devagarinho, curtinho a paisagem e, se for no inverno, comprando castanhas assadas em cada esquina.

No Rocio, sente para tomar um expresso com um pastel (que na verdade é uma designacao genérica para produtos de padaria, como os famosos pastéis de Sta Clara) na antiquíssima Pastelaria Suiça. Dali, tome a rua principal e siga em direção ao rio Tejo e à Praça do Comércio. A praça é sempre um local de happenings artísticos, cercada por arcadas. Num cantinho da praça encontre o Bar das Arcadas, onde o poeta Fernando Pessoa passava suas tardes tomando café e escrevendo seus poemas. Vale a pena imitar o poeta. Peça tambem um tostado de jamon e queijo, que é uma delícia.

O Rocio está num vale. Dos dois lados, no alto, encontram-se o Chiado (bairro das compras, dos cafés e restaurantes mais sofisiticados), que pode ser alcançado pelo elevador Santa Clara (antiquíssimo, no meio da rua entre o Rocio e a Pca do Comércio; vale experimentar). O Chiado merece uma manhã. Nao deixe de dar uma paradinha no café A Brasileira, um outro pontos do Fernando Pessoa. Á praça do café A Brasileir é o eixo central do Chiado.

Do lado oposto ao Chiado encontra-se a Alfama, bairrro dos fados, das tascas e da boemia. Nele fica o sensacional Castelo de Sao Jorge. Visite a Alfama à tarde (pegue o bonde 28, proximo a Praça do Comércio) e veja o por do sol de dentro do castelo, com Lisboa e o Tejo a seus pés.

Sobram ainda o Convento dos Jeronimos, a Torre de Belem e os famosos pastéis com vinho do Porto. Vale gastar uma hora. Se voce estiver de carro, atravesse o Tejo pela incrivel e moderníssima ponte Vasco da Gama. Cuidado, pois do outro lado tem um mega outlet e voce pode se envolver em encrencas com sua mulher.

Pra comer em Lisboa:

  • Casa da Comida: portugues, contemporaneo, caro e sofisticado. Você é recebido e pode tomar um drink na biblioteca da casa.
  • Solar dos Presuntos: lembra um pouco o Jardim di Napoli em Sao Paulo. Caos total, garçons atarefados e que não nos escutam, filas imensas. Mas a comida vale, particularmente os presuntos como entrada, o arroz de pato e a posta de bacalhau a Lagareira (grelhado) alto e tostado.</lições.

Na hora de escolher o prato de bacalhau fique sempre entre o com Broas (grelhado com migalhas de pão torrado) e o Lagareiro (grelhado com cebolas e batatas ao murro). O Bacalhau com Natas (cremoso) é meio estranho para nosso paladar. De vez em quando você acha o nosso conhecido à Braz.

Quanto ao fado, desta vez não fui. Achei um saco (tipo ouvir tango em Buenos Aires). Para quem gosta, recomendo não jantar no lugar do fado. Os vinhos desses lugares costumam ser caros e as cartas ruíns.

Resumindo: Lisboa é um otimo programa para dois dias. Se voce quiser dar um giro pela região vá até Sintra (um vilazinha tipo Campos de Jordão com lindos castelos), a caminho passe pelo Palácio de Queluz (familia real portuguesa morou lá; os jardins são lindos) e depois siga para Cascais, fechando o circuito no Estoril. De carro, voce voltará a Pça do Comércio e ao Centro de Lisboa. Proximo de Sintra (Cabriz), vá almocar no Curral dos Caprinos (sensacional).

Quanto a Lisboa e proximidades, acho que isso é “materia dada”.

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