Sobre macacas, porcos, aranhas e outros bichos

“A macaca enfrenta os porcos no Moisés Lucarelli e sai de lá com vantagem para matar o campeonato no Palestra”.

“Sufocada em seu campo, pela tática do Luxa, a macaca não consegue subir além do meio campo”.

“O ala do verdão coloca a bola no segundo pau, encobrindo o Aranha”.

Para quem gosta de futebol, como eu, entendeu tudo. Para quem não gosta, provavelmente acha que eu estou delirando. As frases acima estão em linguagem de “boleiros”, aqueles que de algum jeito estão envolvidos com o mundo da bola (torcedores fanáticos, juizes, jogadores e comentaristas profissionais e amadores). Não existe preconceito entre os “boleiros”. Amadores e profissionais coexistem no maior respeito. É comum ultimamente que atores, cantores, escritores e artistas de várias categorias “incorporem” cronistas esportivos, escrevendo crônicas, comentando jogos na TV e participando de mesas redondas aos domingos à noite.

As mesas redondas são um fenômeno sociológico muito saboroso. Sempre que posso, quando minha mulher cochila e eu tomo posse do controle remoto nos domingos à noite, viajo de uma mesa redonda para outra, ouvindo as mesmas coisas, as interpretações mais “estrambólicas” imagináveis sobre os jogos do dia, não pelo conteúdo, mas apenas para saborear o linguajar dos boleiros.

Ouvir uma discussão acalorada sobre um lance do jogo do dia, entre um ex-jogador, um jogador que aparticipou da partida, um juiz e um comentarista polêmico (tipo Silvio Luiz, ou Cajuru… de novo isso é linguagem de boleiro) é um prato saboroso, a ser degustado por “gourmets do futebol”.

De repente, para explicar um lance confuso e polêmico, aquele ex-juiz famoso (permitam-me não pagar o jabá) se sai com: “a regra é clara”. Isso encerra uma discussão envolvendo toda a mesa, como se “Jeová tivesse se pronunciado definitivamente sobre quem abriu o mar Vermelho”!!!

Outras vezes, quando a câmera pega um lance errado de impedimento não dado pelo juiz, coisa de 10 cm do atacante á frente do zagueiro, começa uma discussão interminável sobre se a bandeirinha gostosa estava distraída e deixou o juiz vendido no lance.

Tudo isso me delicia. É como se eu estivesse assistindo a um espetáculo popular de cordel, ou degustando uma buchada de bode numa feira do nordeste. São sabores sutis, que só podem ser apreciados por quem é fascinado pela sofisticação da simplicidade. Quem nunca experimentou, perca o preconceito e experimente. É viciante, como um bom sandwiche de mortadela com pingado, com o umbigo grudado no balcão da padaria, ao lado de um bêbado degustando um rabo de galo às 8 hs da manhã.

A propósito, para quem não é boleiro:

  • A “macaca” é a designação da torcida para o time da Ponte Preta de Campinas.
  • “Porco” (ou Verdão) é o time do Palmeiras.
  • “Aranha” é o goleiro da Ponte Preta.
  • “Ala” é o jogador que joga nas laterais do campo.
  • “Segundo pau” é a baliza do gol do lado oposto de onde a bola foi cruzada.
  • Palestra é o estádio do Palmeiras e Moises Lucarelli o da Ponte.
  • Luxa é o Wanderley Luxemburgo, técnico do Palmeiras.

Quer aprender mais? Não perca a mesa redonda do domingo, no horário do Fantástico. Eu garanto que é bem melhor do que a turma do Pânico.

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