Par, ou Ímpar???

Quando eu era menino e a gente disputava qualquer coisa (a menina mais bonita, distribuir os cabeças de bagre entre dois times de futebol, quem joga no gol, que filme assistir no sábado, o que fazer no feriado, etc), se houvesse impasse a solução era sempre: “vamos tirar no par ou ímpar”.

Naqueles longínquos anos, eu não me dava conta, mas já estava vivenciando aquilo que reputo como o maior defeito de TODOS nós brasileiros: a preguiça mental. A preguiça mental tem outras denominações: levar com a barriga, não fazer nada para ver como é que fica, quebrar o galho, jeitinho brasileiro, improvisação e por aí vai.

No fundo, sempre que temos que tomar uma decisão de mudança que seja difícil, antipática, trabalhosa, ou arriscada, a atitude padrão de 9 entre cada 10 brasileiros é tergiversar.

Nas últimas semanas temos vários exemplos disso, vindos da da esquerda, da direita, do PT, da oposição, de empresas, governos e cidadãos. Vamos examinar três exemplos recentes:

  • O PSDB está rachando em São Paulo, por adiamentos sucessivos na escolha do candidato a prefeito. O presidente do partido participou de uma reunião com o Serra defendendo a opção Kassab, para na porta do palácio dar entrevista dizendo que a opção Alckimin já estava tomada (deixou o governador puto da vida…).
  • O trânsito de São Paulo está caótico, enquanto as autoridades discutem se a saída é mais metrô (de onde virá o dinheiro?), mais anel rodoviário, pedágio no centro, estender o rodízio, ou nehuma das anteriores. Enquanto isso, bilhões de reais são perdidos no custo do tráfego parado.
  • O leilão da CESP…. dá para acreditar? O governador foi até o fim, gastou uma nota, sem saber que as concessões não podem ser estendidas para depois de 2015 sem aprovação do congresso. Por sua vez, o ministro de Minas e Energias só lembrou disso em função do “embroglio” da CESP!!! Como se essas concessões não fossem um dos marcos regulatórios mais importantes para fomentar investimentos no setor de energia. E como se o setor de energia não fosse um dos gargalos de nossa infra-estrutura, que impede o Brasil de crescer a mais de 4,5% ao ano.

Se a gente quizesse poderia passar o dia pensando em exemplos desse tipo de atitude que conduz sempre e sempre ao destino de “gigante adormecido em berço esplêndido”. Foi por indecisão do Parreira que o Brasil perdeu a Copa de 2006, é por indecisão dos Estados que a reforma tributária não emplacou até hoje, é por indecisão de todos que a dengue voltou a bombar no RJ, etc, etc, etc.

Vale perguntar: será que tem jeito? Será genético? Será que essa maravilhosa mistura de raças que resultou no brasileiro alegre, de bem com a vida e boa praça, resultou também num povo sem garra, sem coragem de encarar seu destino? Eu não sou tão crítico. Acho que nos falta mais prática. Um povo que viveu, e vive, à sombra de “paizões” que tomam todas as decisões por nós (Dom Pedro II, Getúlio, Jânio, JK, os governos militares, Collor, FHC, Lula,…), não tem iniciativa para enfrentar de pequenos a grandes problemas por sua conta e risco.

Nossa democracia é infleizmente verde, quando comparada à Europa e EUA. No mundo desenvolvido todos têm consciência de suas responsabilidades individuais e coletivas e sabem que se falharem não haverá desculpas. Nos EUA existe uma cultura exacerbada de desvalorizar o chamado loser (perdedor) e todos aceitam que the winner takes all (o vencedor leva tudo). Trata-se de uma cultura competitiva. Enquanto isso, por aqui, nós falamos em “lucro exorbitante”, que é uma figura de retórica incompatível com o capitalismo. Numa economia aberta quem limita os lucros é o mercado e aqueles que conseguem mais lucros deveriam são reconhecidos como vencedores.

Mas aí vem a chorumela da turminha da esquerda, perguntando pelos desvalidos, pelos sem teto, sem emprego, sem saúde, sem escola, sem, sem, sem…??? Os mais ricos já dão sua contribuição pagando mais impostos, na medida em que ganham mais. Eles já retornam à sociedade sua contribuição. Cabe ao governo usar bem esse dinheiro, o que raramente acontece.

E como é que a gente sai dessa “camisa de força”??? Eu acho que existem dois caminhos que devem ser trilhados paralelamente, de forma consistente, constante e duradoura: educação em massa e organização da sociedade civil (para cobrar daqueles que temporariamente são escolhidos para representá-la).

Como iniciar este fogo revitalizador da sociedade brasileira? Cabe à imprensa ecoar de forma menos oportunistica e mais cidadã tudo que ocorre (e o que não ocorre) no país. Cabe ao cidadão demandar por educação, fazendo refletir isso em seu voto. Cabe também ao cidadão participar coletivamente (sociedades de bairros, condomínio, associação de pais e mestres, clubes, associações de classe, sindicatos, etc) para fecundar o ovo da sociedade civil organizada. E cabe às empresas se organizar também, através de sociedades de classe (FIESP, Confederação das Indústrias, Sindicatos Patronais, etc), para pressionar pelas prioridades. Na verdade, talvez o único elo que esteja fazendo seu papel são as empresas…

E quanto aos políticos? Ficam fora de tudo isso? Ora, os políticos somos nós (ou será que tem japonês, americano, ou europeu no congresso brasileiro).

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